O empresário Benjamin Steinbruch, diretor-presidente da Companhia Siderúrgica Nacional (SCN) escreveu (hoje) na Folha de S. Paulo ("Só obras financiadas e estimuladas pelo setor público tiram país da crise") que "não há outro caminho para sair da recessão que não passe por obras financiadas e estimuladas pelo setor público. Estradas precisam e podem ser recapeadas; rodovias, asfaltadas; ferrovias, concluídas; obras de saneamento, iniciadas; concessões públicas, continuadas; escolas, construídas; habitações, financiadas". Steinbruch tem razão. 

Neste país, quando a corda aperta no pescoço, até o mais empedernido neoliberal se socorre no salvador Estado, afinal, não existe fortuna que não tenha sido construída sem o seu auxílio (e, em muitos casos, de maneira nada republicana).

Não obstante, deveria ser assim também com a fiscalização agropecuária tutelada pelo Estado brasileiro (e não por governos de plantão). Em  tempos de proibições e restrições aos produtos agropecuários brasileiros, o Estado brasileiro deveria (caso tivéssemos verdadeiros estadistas) beneficiá-la com uma grande reestruturação e com um gigantesco aporte de recursos públicos para recuperá-la e torná-la imune à politicagem, às indicações políticas, à incompetência, à ingerência técnica, à falta de autonomia entre outras mazelas.

Salta à  vista que o BNDES aportou bilhões na indústria da carne (em 2010, p. ex., o BNDES aportou R$ 7,5 bi apenas no Friboi). Agora, em benefício do interesse público em fiscalização agropecuária feita pelo Estado brasileiro as autoridades sempre alegaram que não havia dinheiro! Explica-se, portanto, sem margem para dúvida, que sua precarização é flagrantemente deliberada!  Neste ano, o governo federal cortou o orçamento da Agricultura pela metade (de R$ 2,215 bilhões para R$ 1,204 bilhão). A precarização é tamanha que o Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais Federais Agropecuários (ANFFA Sindical) denunciou ontem (26) que a falta de fiscais e cortes de verbas públicas pelo governo causaram os problemas na carne exportada que levaram os EUA a barrarem a importação deste produto in natura e, de acordo com esse sindicato, "há atualmente cerca de 270 frigoríficos brasileiros que atuam no mercado externo operando" sem a presença de fiscais agropecuários do Estado com formação em medicina veterinária.

Mas não! Ansiosos e literais açougueiros neoliberais querem privatizar a fiscalização agropecuária tutelada pelo Estado brasileiro, ou seja, querem colocar a raposa e o gambá no galinheiro: intencionam que "inspetores" privados remunerados pelo "deus" mercado "façam" autofiscalização.

Mas não! Segmentos divorciados do interesse público se articulam para privatizar a fiscalização agropecuária tutelada pelo Estado brasileiro - deliberadamente sucateada por sucessivos governos - a toque de caixa, em regime de urgência, sem ampla discussão, especialmente, privatizar a segurança alimentar da população (PL 334 de 2015, PLS 326 de 2016, no Paraná, em Santa Catarina e agora no Rio Grande do Sul).

A gravíssima questão que envolve o Serviço Oficial de inspeção de produtos de origem animal tem solução, bastaria às autoridades (sic) em turno encamparem, p. ex., a  "Proposta de Reestruturação do Sistema Brasileiro de Inspeção de Produtos de Origem Animal" elaborada por competentes setores do próprio Ministério da Agricultura.

Ocorre que o "modelo privado de inspeção" que querem impor é solenemente rejeitado pela União Europeia (UE). Desta forma, assim que o "modelo privado de inspeção" for "legalizado" (deixar de ser disfarçado, como é atualmente), no outro dia, os europeus imporão boicote à carne brasileira. 

 

Depois, com a vaca no brejo e prestes a se afogar, é inútil tentar "culpar" os americanos, os europeus...   

 

"Despeço-me esta noite com grande tristeza. Há algo, no entanto, que devo sempre lembrar. Duas pessoas inventaram o New Deal: o Presidente do Brasil e o Presidente dos Estados Unidos."
— Franklin Delano Roosevelt, 27 de novembro de 19361

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1 ROOSEVELT, Franklin D. Remarks made by the President, in reply to the address of the President of Brazil, at the banquet given in his honor at the Brazilian Foreign Office. Rio de Janeiro, 27 de novembro de 1936. Franklin D. Roosevelt Library. Speech Files, Box 30, File 1021-A.

 

Last modified: June 27 (11:47)