Por Ralph Rabelo Andrade

Se você ainda não teve oportunidade, assista ao filme As Bruxas de Salém, de 1996. Baseado em uma história real, trata de um dos últimos julgamentos de pessoas, a maioria mulheres, pela prática da bruxaria. O que hoje soa absurdo, em 1692 possuía contornos dramáticos no pequeno povoado de Salém, Massachusetts: 150 pessoas foram presas e 20 julgadas culpadas e executadas. Uma das cenas que mais me marcou nesse filme foi quando representantes da “justiça” marcavam as portas das casas dos suspeitos por bruxaria (com sangue, acho) para identifica-los – e, claro, segrega-los. Esse mesmo comportamento seria repetido no regime totalitário de Hitler contra os judeus.

A discriminação em razão de o indivíduo pertencer a determinado grupo social sempre aconteceu durante a história da humanidade. Isso não significa que seja razoável, aceitável ou tolerável. Homicídios também são históricos.

A discriminação de determinados grupos (mulheres, homossexuais, judeus, negros etc.), por si só, não significa muita coisa, é uma mera segregação em razão de determinada característica, assim como separar as calças das camisas dentro do guarda-roupa. O problema é que se sucede: essa segregação servirá para classificar os indivíduos e trata-los de formas distintas conforme a classificação obtida. Aos pertencentes àquela categoria dar-se-á determinado tratamento e aos outros outro tratamento.

Independentemente do grupo segregado, há sempre um grupo que decide: decide quem será segregado e a qual tratamento será submetido, tudo de forma empírica, de acordo com seus desejos (que são sempre pessoais). Vou chamá-los de grupo 1.

Não acaba aqui. Há também aquele outro grupo que fica responsável pela execução do tratamento, aquelas pessoas que transformam o desejo do grupo 1 em realidade. Vou chamá-los de grupo 2.

Calma, ainda não acabou. Há também um outro grupo, muito maior, daqueles que não dizem ou fazem absolutamente nada em oposição, não tomam partido, não se mostram favoráveis aos discriminadores ou aos discriminados, simplesmente se omitem. Vou chamá-los de grupo 3. Não se iluda quando imagina que a esse grupo não recai nenhum tipo de responsabilidade. Em tempos de olimpíadas, qualquer um sabe que a corrida com obstáculos é mais difícil do que a sem obstáculos. Quando a maioria das pessoas decide por não se opor àqueles dos grupos 1 e 2, acaba por apoiá-los e é também responsável pelas consequências danosas advindas.

Guardadas as devidas proporções com esses eventos históricos – é claro que hoje ninguém mais é condenado à morte por pertencer a determinado grupo (será???) –, algo bastante similar, em seu princípio, está em curso dentro da Adapar. Promovido de dentro do cerne da direção dessa instituição estadual, há duas (e somente duas) categorias de servidores: os que pertencem e os que não pertencem a determinada associação. Não, essa associação não é uma organização criminosa, não é uma organização paramilitar, é uma associação legítima. Não se discrimina os servidores entre cumpridores e descumpridores dos deveres, entre eficientes e ineficientes, entre capazes e incapazes, se discrimina em razão da sua opção de associação. É o equivalente a classificar os servidores entre palmeirenses e não palmeirenses e a estes tentar demovê-los da ideia de torcer a outro time, ou ..... Se essa história fosse publicada estaria na seção de ficção.

Diferentemente de Salém, onde a prática da bruxaria era considerada crime, os servidores pertencentes à associação tiveram suas portas devidamente marcadas sem cometimento (ou suspeita) de crime algum. Este caso, no entanto, está mais para a discriminação promovida pelos nazistas, haja vista que a prática do judaísmo não era considerada crime.

Para Hitler, os judeus eram um obstáculo a ser removido, a ser eliminado. Seriam condenados às piores penas simplesmente porque haviam nascido judeus. Foram condenados sem julgamento. Foram condenados sem crime. Foram mortos sem julgamento. Foram mortos sem crime cometido. Homem, mulheres, crianças, idosos, todos julgados, agora sim, sem qualquer discriminação. Essa discriminação não é natural, foi dirigida, foi proposital, foi dolosa, foi criminosa.

Aqui nessa instituição promove-se uma discriminação idêntica (em termos principiológicos), apenas com consequências menos gravosas, claro. Alguém decidiu (grupo 1) que o grupo dos servidores que pertencem a uma determinada associação deve ser removido. A execução já começou (grupo 2). A maioria finge que nada está acontecendo (grupo 3).

E você, a qual grupo pertence?

A Adapar, criada em 2011, ainda está em 1692. Que vergonha!

 

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