Brasil da Fato

"O agronegócio está no governo, é o governo", afirma engenheiro agrônomo

Governo Temer liberou Benzoato de Emamectina no país; Confira entrevista especial com o especialista Leonardo Melgarejo

Por Vitor Necchi


 

O Diário Oficial da União publicou, no dia 6 de novembro, a liberação do Benzoato de Emamectina. A decisão causou estranhamento e protesto, porque este veneno, conforme Leonardo Melgarejo, não tem similares. "É o pior que pode ser oferecido", resume. "A prioridade à morte das lagartas, a despeito das ameaças à saúde da população, é por demais desrespeitosa para ser aceita." O especialista sustenta que a decisão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária - Anvisa deve ser explicada para a sociedade.

Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, Melgarejo afirma que não há como evidenciar que a liberação contemple o interesse das empresas e a pressão da bancada associada àqueles interesses, mas "o fato é que, em pouco tempo, a Anvisa realizou estudos adicionais, reavaliou sua decisão anterior e, após rápida consulta pública, tão rápida que poucos brasileiros tomaram conhecimento, emitiu novo parecer, autorizando o uso daquele veneno".

A descrição dos danos que o Benzoato de Emamectina pode causar sugere gravidade. Anteriormente, quando a Anvisa havia proibido o uso, a agência apontou "danos importantes sobre o sistema nervoso central". Melgarejo complementa que também "podem ocorrer problemas sutis, como dificuldade de aprendizado, elevação no índice de acidentes e quadros de depressão".

O cenário não é nada alentador: "Podemos esperar alteração nos índices de acidentes e de tragédias entre as famílias de operadores rurais e mesmo de habitantes de regiões onde o veneno vier a ser aplicado". Melgarejo garante que o interesse econômico está se sobrepondo a questões de saúde. "Isto decorre de um fundamento: as forças que dirigem e apoiam este governo não consideram os direitos humanos como mais relevantes do que os direitos ao lucro".

Desde 2008, o Brasil está no topo do ranking mundial de consumo de agrotóxicos. Melgarejo apresenta vários motivos que explicam esta posição e diz que, para resolver isso, o Brasil teria que mudar o modelo produtivo e reduzir o tamanho das lavouras. "Em outras palavras: reforma agrária e políticas de apoio à agroecologia.' Ele diz que quem ganha com o que hoje existe é a indústria química. "Ela é a base do agronegócio, deste modelo que domina nosso governo e nosso território." Melgarejo resume assim a composição de forças e interesses: "O governo não é complacente com o agronegócio. O agronegócio está no governo. O agronegócio é o governo".

Leonardo Melgarejo é engenheiro agrônomo e mestre em Economia Rural pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS e doutor em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC. É vice-presidente da Associação Brasileira de Agroecologia, para a região sul, e faz parte da coordenação do Fórum Gaúcho de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos. É professor colaborador do Mestrado Profissional em Agroecossistemas da UFSC.

Confira a entrevista:

IHU On-Line – Que danos o agrotóxico Benzoato de Emamectina, que é usado em culturas de algodão, feijão, milho e soja, pode causar para a saúde humana?

Leonardo Melgarejo – Estudos referidos pela Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária], na ocasião em que ela proibiu o uso do veneno no Brasil, apontavam danos importantes sobre o sistema nervoso central. Isto significa tanto fragilidade na capacidade de julgamento como no controle das ações motoras e mesmo degeneração permanente em neurônios, nervos e músculos.

Estudos com ratos apresentaram sintomas que variavam desde tremores e convulsões até a morte. Os estudos mostravam desde lesões no cérebro, nos nervos ciático e óticos, até dificuldade de locomoção e perda de firmeza nos movimentos. Os mesmos sintomas também teriam sido observados em estudos com cães e coelhos para contatos com doses muito pequenas. Em alguns estudos, o contato com doses médias e altas estaria associado à presença de malformação fetal.

Em humanos, podemos esperar tudo isso, mas também podem ocorrer problemas sutis, como dificuldade de aprendizado, elevação no índice de acidentes e quadros de depressão. Também não se pode deixar de observar que a infelicidade associada a quadros de depressão e a disponibilidade de venenos extremamente tóxicos podem levar à expansão nos casos de suicídio. Enfim, podemos esperar alteração nos índices de acidentes e de tragédias entre as famílias de operadores rurais e mesmo de habitantes de regiões onde o veneno vier a ser aplicado. Imagine, por exemplo, o que poderá acontecer em regiões onde o veneno vier a ser aplicado de avião.

IHU On-Line – O Diário Oficial da União publicou no dia 6 de novembro a aprovação do Benzoato de Emamectina. Em que contexto isso ocorreu? O que antecedeu esta medida?

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Mais informações:

Emamectin & Human Health Effects  

 

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