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Ex-fiscais governamentais do USDA & FSIS dizem que há déficit crítico de pessoal

Ex-fiscais governamentais preveem que a falta de pessoal altamente qualificado diminuirá a segurança alimentar dos EUA 

 

 

Em 21/08/2017 o Food Safety News divulgou a notícia "Former USDA officials say feds critically short of veterinarians" & Veterinarians' groups predict shortage of highly educated staff will decrease U.S. food safety (por Cookson Beecher), onde ex-fiscais governamentais  do U. S. Departament of Agriculture (USDA) & Food Safety and Inspection Service (FSIS), alertam que a falta de pessoal diminuirá a segurança alimentar dos EUA.

Os veterinários envolvidos valem-se do ditado "sometimes when a door swings open, opportunity for change has the chance to enter" na expectativa de que mudanças ocorram para melhor diante das mudanças que ocorreram em dois altos cargos do FSIS.

A oportunidade que os veterinários de supervisão de saúde pública (SPHVs) - equivalentes aos fiscais agropecuários brasileiros - esperam é que essas mudanças renovem o compromisso assumido pela liderança do USDA de "aumentar a hierarquia dos SPHVs federais em frigoríficos, cargos administrativos e cargos de supervisão do FSIS".

O aumento do contingente de SPHVs federais nessas três áreas é parte intrínseca de um plano de pessoal divulgado em fevereiro (2017) pela American Veterinary Medical Association and supported e National Association of Federal Veterinarians.

Esse plano também recomenda que o FSIS forneça ou pague 40 horas por ano de treinamento profissional e/ou treinamento em segurança alimentar para seus veterinários de supervisão de saúde pública. Isso inclui reuniões profissionais realizadas pelo FSIS que podem ser aplicadas ao [inspeção de produtos de origem animal] ao trabalho.

O plano de pessoal em questão foi desencadeado visto que o FSIS, pela primeira vez, discutiu a possibilidade de valer-se de "responsáveis" nos frigoríficos que não são veterinários públicos. Isto, para o ex-fiscal governamental do USDA & FSIS, veterinário William James, é "um desastre à espera de acontecer" e "por isso [o plano] fazemos isso agora antes que aconteça". James encerrou sua carreira de 28 anos no FSIS e por 3 anos (2008-2011) foi seu principal veterinário. 

 

Você come carne?

"Se você come carne, então é algo de que você gosta", disse James. Ele disse que, por causa da segurança alimentar, é importante contar com veterinários de supervisão de saúde pública experientes, desde os que executam suas atividades nos frigoríficos até o topo do USDA, "para proteger as pessoas de doenças transmitidas por alimentos".

Para o ex-fiscal governamental do USDA & FSIS, veterinário Brian Ronholm, que foi seu vice-subsecretário de segurança alimentar abril de 2011 a janeiro de 2017, "aumentar o número de veterinários no FSIS [também] aumentaria sua capacidade para reduzir as taxas de doenças transmitidas por alimentos".

O fiscal governamental e veterinário Michael Gilsdorf, membro da National Association of Federal Veterinarians desde abril de 1983 e seu presidente durante o biênio 1995-1996, também concordou com Ronholm.  Gilsdorf disse que "o FSIS realiza seus deveres de inspeção de segurança alimentar no nexo de saúde animal e saúde pública". Este nexo é onde bactérias existentes na carne, como E. coli, Salmonella e Listeria, tornam-se agentes patogênicos transmitidos pelos alimentos.

Existem mais de 70 doenças conhecidas em animais que são transmitidas aos humanos e causam doenças, disse Gilsdorf. "A responsabilidade máxima no FSIS de garantir que a carne é segura para o consumo humano depende dos SPHVs", afirmou Gilsdorf, ressaltando que os veterinários públicos recebem educação formal em processos de doenças, microbiologia e doenças zoonóticas que são necessárias para condução efetiva das inspeções antes e depois que os animais são abatidos. Também recebem "educação formal em procedimentos sanitários, enquanto poucos 'inspetores de alimentos' têm a educação necessária para entender os processos microbiológicos que são a base para os requisitos de segurança alimentar em frigoríficos”, disse ele. Logo, adverte James, a segurança dos alimentos regulamentados e fiscalizados pelo USA & FSIS "é muito importante para ser deixado para pessoas sem educação adequada para fiscalizar" todos os frigoríficos.

"Os veterinários são a melhor fonte no FSIS para essa experiência, porém, nenhum veterinário pode ser encontrado na liderança de um único escritório no FSIS", disse James.

Ronholm disse que sua experiência como subsecretário de segurança alimentar no USDA provou-lhe que os líderes do FSIS  precisam de conhecimentos e habilidades especializadas. "É importante que a nova liderança no FSIS seja composta por pessoas com fortes credenciais de saúde pública e perspicácia política", disse. "Também é essencial que os novos líderes não sejam apenas defensores persuasivos das prioridades de segurança alimentar, mas também fervorosos defensores dos funcionários públicos do FSIS".

Eric Mittenthal, porta-voz do North American Meat Institute, a principal voz do setor de carne, disse que os "veterinários desempenham um papel importante na inspeção de carne, mas o monitoramento da segurança alimentar ocorre em vários pontos ao longo do processo" e que é "responsabilidade do FSIS equilibrar essas necessidades ao longo do processo de inspeção e garantir que os seus veterinários estejam bem treinados e capazes de desempenhar corretamente suas funções para que os americanos possam continuar a desfrutar de carne segura".

 

Deficiência no contingente de veterinários públicos no USDA & FSIS

Gilsdorf disse que há uma "situação crítica da força de trabalho que se desenvolveu no FSIS e que precisa de imediata atenção imediata".

James afirma que "até agora, os veterinários de supervisão de saúde pública (SPHVs) conseguiram garantir que os alimentos sejam seguros e saudáveis", porém, "eles não podem continuar a atender vários frigoríficos sem comprometer a [da população] segurança alimentar em um futuro próximo".

Gilsdorf e seus colegas acreditam que é hora de resolver esse problema. "Acreditamos que o alarmante nível de vagas de SPHVs a serem preenchidas no FSIS é uma razão importante para o surpreendente aumento das doenças transmitidas por alimentos em 2016, associadas aos produtos sob fiscalização do FSIS", disse Gilsdorf.

James chegou a uma conclusão semelhante, com os  próprios dados do FSIS divulgados no seu  "Strategic Plan Fiscal Year 2011-2016", o qual mostra um salto de 72% no número de doenças causadas por Salmonella, Listeria e E. coli O157:H7 em  produtos regulados e fiscalizados pelo FSIS. Em 2015, havia 382.123 casos. Em 2016, esse número saltou para 657,405 casos. No relatório, o FSIS atribuiu esse aumento a um novo método "altamente ambicioso" de monitoramento das tendências de ocorrências de doenças alimentares. Porém, James afirmou que a informação do banco de dados do Centers for Disease Control and Prevention’s não mostrou nenhum progresso real na redução de doenças transmitidas por alimentos nos últimos 10 anos. "Isso é o que acontece quando o FSIS não tem liderança efetiva", disse ele. "Quando não há nenhum progresso em 10 anos, então sabe-se que se faz algo errado. O FSIS precisa fazer progressos em vez de 'treading water'."

 

Problemas e soluções

De acordo com organizações veterinárias, o plano de pessoal em questão afirma que o FSIS não tornou as posições de supervisão veterinária em saúde pública suficientes para manter os veterinários mais altamente qualificados. O pagamento para trabalhar em um frigorífico é de pelo menos US$ 10.000 a menos por ano - muitas vezes muito menos - do que um veterinário poderia ganhar na iniciativa privada.

Atualmente há mais empregos veterinários disponíveis do que as pessoas que se formam nas universidades. Isso se traduz em uma forte concorrência. E não é de surpreender que muitos veterinários recém-formados busquem empregos para cuidar de animais de estimação, evitando realizar inspeções em frigoríficos.

Gilsdorf disse que o plano de pessoal recomenda incentivos para o recrutamento, como o pagamento de 25% na forma de bônus nos dois primeiros anos para todos os locais. Outro incentivo poderia ser o reembolso do empréstimo estudantil de US$ 5.000 por 10 anos com um contrato de serviço. Nos EUA seus veterinários têm entre os maiores saldos de empréstimos estudantis de qualquer outra profissão, variando entre US$ 130.000 a 150.000.

"Temos a oportunidade de restaurar a liderança profissional e trazer SPHVs suficientes para que as equipes de fiscalização possam ser supervisionadas", disse James. Quanto ao dinheiro público necessário para fazê-lo, ele disse que o orçamento do FSIS não foi cortado e pode redirecionar parte do seu dinheiro, se necessário. A associação estima que cerca de US $ 10 milhões em dotações do FSIS seriam necessárias para completar sua força de inspeção de produtos de origem animal.

James disse que mais funcionários não elevarão os preços de carne para o consumidor, porque será o FSIS, e não a indústria da carne, que pagará por isso.

James disse, com base na sua experiência, que para ser veterinário de supervisão de saúde pública, exige-se "um certo tipo de pessoa com uma certa mentalidade".

"Se você salvar o poodle de alguém, você é um herói", disse ele. "Mas você pode seguir toda sua carreira como veterinário supervisor de saúde pública e ninguém vai pensar em você como um herói. No entanto, uma boa decisão pode salvar muitas vidas. As recompensas para aqueles com a mentalidade correta são maiores do que qualquer coisa na iniciativa privada".

Gilsdorf concordou com James, dizendo que os indivíduos que trabalham como veterinários supervisores de saúde pública enxergam isso "como um serviço para a humanidade" e acrescentou que [o Congresso norte-americano] outro grupo de funcionários públicos tem o poder de garantir que a inspeção de produtos de origem animal continue. "O Congresso pode resolver esta situação rapidamente", disse Gilsdorf.

Além de compartilhar o plano de pessoal com a liderança do FSIS, a National Association of Federal Veterinarians também vem reunindo apoio junto aos membros do Congresso norte-americano, grupos de commodities e outras associações veterinárias, incluindo associações de veterinários de suínos e bovinos.

Outro sinal positivo é que o atual Relatório do U.S. House Budget Report (Orçamento da Câmara dos EUA) concede ao FSIS a resolução desta questão, mas Gilsdorf disse que a agência "precisa de ajuda adicional imediata para preencher 120 cargos de supervisão em saúde pública".

O porta-voz do FSIS disse que como maior empregador de veterinários federais nos Estados Unidos, a agência reconhece seus conhecimentos e experiências em favor da inspeção de produtos de origem animal. Como tal, continua-se a procurar incentivos de recrutamento e [formação de quadro permanente e estável] retenção para manter e expandir [dos SPHVs] suas contribuições para a missão do FSIS.

Atualizado em 22/01/2018 às 01:24

 

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