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“Autofiscalização” privada: Fiscais agropecuários da carne do USDA & FSIS fazem graves denúncias

Trata-se do programa governamental preconizado pelo United States Department of Agriculture (USDA) chamado HIMP - HACCP-Based Inspection Models Project que atualmente é testado em alguns frigoríficos piloto, antes de ser adotado como “regra” e expandido para todos os demais frigoríficos norte-americanos — no Brasil, lamentavelmente, certos gestores públicos e certos congressistas intencionam seu “HIMP” piorado!

 

 

Crédito imagem: Food Integrity Campaign

 

Food Integrity Campaign lançou uma campanha contra o programa de “autofiscalização” privada  da carne suína a que chama de Trump’s Pork Rule (em tradução livre “regra de suíno de Trump”)1, na qual  pede para que os consumidores norte-americanos de produtos à base de carne suína não tomarem apenas suas críticas sobre a terrível ideia dessa “autofiscalização” privada da carne que, como agravante, preconiza também o aumento da velocidade nas linhas de produção dos frigoríficos piloto testados nos EUA.

Trata-se do programa governamental preconizado pelo United States Department of Agriculture (USDA) chamado HIMP - HACCP-Based Inspection Models Project2,3 que atualmente é testado em alguns frigoríficos piloto, antes de ser adotado como “regra” e expandido para todos os demais frigoríficos norte-americanos. 

Com o propósito de conferir ainda mais credibilidade às graves denúncias que faz, a Food Integrity Campaign disponibilizou algumas denúncias reais relatadas pelos próprios fiscais agropecuários da carne do United States Department of Agriculture & Food Safety and Inspection Service (FSIS).

Confiram as denúncias disponibilizadas pela Food Integrity Campaign (tradução livre):

 

Há pelos e unhas no meu bacon?!

Certamente é possível, infelizmente. Mais de 1.300 carcaças abatidas de porcos por hora movem-se pelas linhas de processamento de carne nos atuais [sob HIMP] frigoríficos piloto - se a Trump’s Pork Rule for [adotada como “regra” e expandido para todos os demais frigoríficos norte-americanos] implementada, não haverá nenhum limite de velocidade nessas linhas de processamento. É ridiculamente absurdo que os fiscais agropecuários da carne do USDA & FSIS apresentem suas preocupações, especificamente sobre a contaminação da carne disponibilizada aos consumidores. Os fiscais agropecuários da carne relatam que certas coisas na carne suína como pelos, unhas, fezes e rins císticos são despercebidos rotineiramente no “modelo” privaticionista HIMP.

 

O que dizem os fiscais agropecuários da carne denunciantes?

Quatro fiscais agropecuários da carne apresentaram depoimentos públicos à Food Integrity Campaign, nos quais detalharam suas experiências de como, como afirmou um dos fiscais, “a segurança alimentar foi pelo ralo abaixo”. O programa piloto original da inspeção da carne suína em linha de processamento de alta velocidade foi [pelo governo] implementado sob o pretexto de que melhoraria a segurança alimentar da população. Mas não é assim que reconhecem os fiscais agropecuários governamentais da carne. Um fiscal governamental declarou anonimamente: “Ao longo dos anos, aprendi que [“melhorar a segurança alimentar”] não é esse o caso. Em vez disso, parece que é uma maneira do USDA atender apenas a indústria da carne em vez do consumidor”.

Os fiscais agropecuários da carne correm o risco, pelas denúncias que fazem, de retaliações ou rescisões de seus contratos de trabalho. Um denunciante suficientemente corajoso para se identificar, Joe Ferguson, declarou: “Pessoalmente, eu não vou comer carne identificada com o nome do frigorífico piloto que a produziu. Eu não acho que seja saudável ou seguro consumi-la”.

Alguns dos problemas suscitados nas denúncias dos fiscais agropecuários da carne incluem:

- Os empregados dos frigoríficos assumem os deveres4 dos fiscais agropecuários da carne. Enquanto os fiscais agropecuários da carne, do setor público, possuem proteções na condição de denunciantes e podem falar em nome dos trabalhadores dos frigoríficos, os funcionários destes, do setor privado, não possuem adequadas salvaguardas legais. Eles não podem denunciar os casos de insegurança alimentar que são verificados ou interromper as linhas de processamento de carne sem receio de sofrerem retaliações.

“O frigorífico ameaça seus empregados com rescisões de seus contratos de trabalho caso constate que eles condenam muitas carcaças de suínos ou partes dela.” – Fiscal governamental da carne anônimo (USDA & FSIS hog inspector Affidavit #3).

- As velocidades das linhas de processamento de carne no frigorífico piloto operam até 20% mais rápidas que as dos frigoríficos que operam sob fiscalização governamental. As velocidades mais rápidas nas linhas de processamento de carne tornam ainda mais difícil para os empregados do frigorífico piloto e para os próprios fiscais agropecuários da carne detectarem [capazes de causarem insegurança alimentar em prejuízo dos consumidores] carcaças de animais contaminadas.

“Em numerosas ocasiões, testemunhei que [os “inspetores” privados do frigorífico] não conseguiam detectar abscessos, lesões, matéria fecal e outros defeitos capazes de tornar a carne insegura ou insalubre.” – Fiscal governamental da carne anônimo (USDA & FSIS hog inspector Affidavit #1).

- [“Inspetores” privados que efetuam “autofiscalização”, ou seja, contratados e remunerados pelos próprios frigoríficos piloto] Os empregados do frigorífico piloto não possuem treinamento adequado e muitas vezes não conseguem identificar sinais de defeitos e contaminações que podem resultar em doenças transmitidas pela carne ou produtos insalubres de origem animal. Os “inspetores” privados em frigorífico piloto relatam um maior nível de riscos que exigem grau de tolerância zero em benefício da segurança alimentar em comparação com os frigoríficos que operam sob fiscalização governamental.

“Outras contaminações, como pelos, unhas, rins císticos e hastes de bexiga, aumentaram no programa piloto de inspeção HIMP. As [altas] velocidades das linhas de processamento de carne não facilitam a detecção de [produtos de origem animal] contaminações. Na maioria das vezes [as linhas de processamento] elas correm tão rápidas que é impossível ver qualquer coisa na [do animal abatido e processado] carcaça.” – Fiscal governamental da carne anônimo (USDA & FSIS hog inspector Affidavit #2).

- Os fiscais agropecuários da carne do USDA & FSIS só podem realizar fiscalizações sobre uma pequena amostra de carne suína. As amostras coletadas nestes frigoríficos não são representativas e não refletem o verdadeiro [em prejuízo da saúde da população] risco de patogenicidade da carne que é produzida.

“Não é mais significativo que os consumidores de carne vejam a [“carimbo”] marca que indica que o produto foi fiscalizado pelo USDA... Parece que o USDA faz tudo que pode para garantir que o programa de inspeção HIMP seja [visto como] bem sucedido no frigorífico piloto, mesmo que isso signifique trair os consumidores escondendo a verdade sobre a [que consomem] carne deles.” – Fiscal governamental da carne anônimo (USDA & FSIS hog inspector Affidavit #3).

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1 Veja a matéria de 26-2-2018 da Afisa-PR “A ascensão de um perigoso e nocivo ‘sistema’ de inspeção de carne” [Sob o pretexto da ‘modernização’, a Trump's Pork Rule privatiza os deveres de trabalho dos fiscais agropecuários do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) & Serviço de Inspeção e Segurança Alimentar (FSIS) e os ‘transfere’ aos empregados dos frigoríficos que não são treinados para a ‘inspeção’ de produtos de origem animal]

2 Veja a matéria de 20-1-2018 da Afisa-PR intitulada O ‘HIMP’ piorado que tenta privatizar a fiscalização agropecuária”

3 Veja a matéria da Afisa-PR de 16-6-2016 intitulada “EUA: 60 congressistas pedem que o USDA atrase a nova regra de inspeção privada no abate de suínos” [Segurança alimentar: Congressistas americanos podem moratória contra a privatização do abate de suínos]  

4 Veja a reportagem de 22-3-2017 da Gazeta do Povo intitulada “Maior parte dos ‘fiscais da carne’ é contratada pelos próprios frigoríficos” [Sem estrutura e funcionários em quantidade suficiente, Ministério da Agricultura conta com “olheiros” das próprias empresas na linha de abate], por Katia Brembatti

Modificado em 25-4-2018 em 07:24

 

Notícias vinculadas:

24-4-2018 - Food Safety News & Union’s allies in House again come out against new swine rule [About one-third of the U.S. House Democratic caucus has signed a letter to Secretary of Agriculture Sonny Perdue demanding that USDA drop the Swine Slaughter Inspection Modernization Rule] 

22-3-2018 - Greenpeace & Para agronegócio, brasileiro ainda é consumidor de segunda categoria [Novo escândalo no setor de carne expõe a fragilidade dos frigoríficos em garantir produção livre de desmatamento e irregularidades – e quem paga é o consumidor] 

s/d - Food Integrity Campaign & Stop Trump´s Pork Rule

 

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