Afisa-PR

As vulnerabilidades globais contra a exportação da carne

Os investidores do setor, se querem proteger seus ativos, devem exigir um maior progresso da indústria em questões como segurança alimentar, antibióticos e bem-estar animal. A Afisa-PR acrescenta à análise a imperiosa e inevitável promoção, por parte do Poder Público, de fiscalização agropecuária de excelência — e não a que só existe na “propaganda de governos de plantão”, prejudicada pela interferência da política partidária (nomeações de comissionados de confiança), enfraquecida pela ingerência do setor privado, adulteração da segurança alimentar como “lógica de mercado”, falha pela ausência de adequado investimento público, não eficiente pela falta de política de Estado permanente e de longo prazo etc.

 

Crédito imagem: Medium Corporation

 

Em seu artigo “The export factor: Investors warned of vulnerabilities in meat supply chain”1 (O fator de exportação: investidores alertaram para as vulnerabilidades na cadeia de suprimento de carne – tradução livre), publicado em 15 de maio pela Medium Corporation, Maria Lettini, diretora da Iniciativa FAIRR e ex-diretora das Américas dos Princípios para o Investimento Responsável, apoiados pela ONU, adverte que o setor da carne corre riscos comerciais, particularmente as proibições às exportações, e que esse fator não pode ser subestimado.

O mercado global da carne vale US$ 800 bilhões e é composto por uma “cadeia de suprimentos em labirinto” (“labyrinth supply chain”). Lettini cita como exemplo disso os mais de 700.000 bovinos franceses que a cada ano são embarcados para a Turquia e a Argentina que exporta mais de 55 milhões de bovinos para todo o mundo. Os matadouros intermediários processam a carne em um país antes de exportá-la para outro país a venda. Os perigos deste tipo de cadeia de fornecimento global vieram à tona no início deste mês, quando foi revelado que, nos últimos dois anos,  mais de 5.000 ovelhas morreram de estresse por calor enquanto eram transportadas da Austrália Ocidental para o Catar.

Para Lettini, certamente merecem mais investigações por parte dos investidores da exploração dos animais os exemplos recentes de proibições de exportação em transações pecuárias globais e seus principais impulsionadores de fatores potencialmente destrutivos.

Para ela, talvez, o maior problema na proibição das exportações de carne seja o da segurança alimentar. Segundo ela, as ações da maior exportadora de aves do mundo, a brasileira BRF, despencaram no mês passado (6%) depois que a União Europeia proibiu a exportação de carne de frango processada contra três de suas plantas. “Seus frigoríficos foram alvos de uma investigação por parte das autoridades brasileiras relacionada às supostas ações da sua administração para escapar de controles de segurança alimentar e ocultar níveis de salmonela em sua carne” (“The plants were targets of an investigation by Brazilian authorities related to alleged actions by BRF management to escape food safety checks and conceal levels of salmonella in its meat”).

Segundo uma associação brasileira de produtores de aves, nos últimos dez anos, mais de cinco milhões de toneladas de carne de frango foram exportadas para a União Europeia, e uma proibição mais ampla será devastadora para os produtores de carne de frango do Brasil.

Lettini afirma que esta não é a primeira vez que os produtores de carne do Brasil são duramente atingidos por uma proibição de exportação. No ano passado, o escândalo da carne podre (“rotten meat scandal”) provocou protestos dos consumidores, inúmeras proibições à importação de carne bovina brasileira e uma queda de “apenas 11% no preço das ações da maior processadora de carnes do mundo, a JBS” (“a single-day fall of 11% in the share price of the world’s largest meat processor JBS”). A empresa também foi forçada a interromper o processamento de carne bovina em todas as suas 36 fábricas, com exceção de três. A queda foi semelhante para a BRF, “que viu sua queda no preço das ações em 7%, quando o escândalo emergiu” (“which saw its share price drop by 7% as the scandal emerged”).

Para Lettini, a dependência da indústria da carne em antibióticos aumenta risco de proibição de exportação, que implica a resistência aos antibióticos, é outra questão que traz consigo a perspectiva de que empresas de carne com baixo desempenho sejam alvos de proibições de exportação. A resistência contra o uso abusivo dos antibióticos é hoje uma das maiores ameaças à saúde global, já estimada em cerca de 700.000 mortes a cada ano, por isso, os governos estão cada vez mais introduzindo legislações  que visem restringir animais com altos níveis de antibióticos de importância médica. Somente em 2016, os EUA recusaram 133 linhas de entrada de camarão importado da Ásia devido à contaminação com antibióticos proibidos.

Enquanto isso, estima-se que a legislação da União Europeia que proíbe a importação de carne em que antibióticos foram usados ​​como “agentes de crescimento”, tenha custado US$ 100 milhões por ano às exportações de carne bovina norte-americana. Como a legislação contra o uso de antibióticos fica cada vez mais apertada, isso não é uma boa notícia para os produtores de carne que não conseguem reduzir o uso de antibióticos para prevenir doenças ou promover o crescimento em animais.

Outra questão que chama a atenção é a proibição de celas de gestação (gestation crates) que trará  grandes perdas, pois, finalmente, o bem-estar animal é outro componente sério que pode provocar restrições comerciais. Em particular, o caso de celas de gestação, isto é, espécie de barracas que mantêm as porcas enjauladas para que não possam se mover durante a gravidez. As caixas de gestação foram proibidas em 1999 no Reino Unido por razões de crueldade. Em 2013 a União Europeia seguiu o exemplo britânico. Alguns estados dos EUA agora também proíbem o seu uso.

Nos EUA, o impacto de uma proibição mais ampla das celas de gestação pode ser significativo para seu setor de carne suína. Estimativas sugerem que as perdas da indústria da carne variam entre US $ 1,87 bilhão e US $ 3,24 bilhões caso seja implementada a proibição de celas de gestação. Lettini diz que “se o mercado enxergar uma queda na produtividade ao longo da vida das [produtoras de animais] fazendas, os custos poderiam mais que dobrar, para US $ 7,3 bilhões”. Por outro lado, caso as nações ou blocos comerciais imporem uma proibição à carne suína dos EUA, por permitir o uso de celas de gestação, sua indústria da carne suína sofrerá grandes perdas.

Outro alerta de Lettini é a de que as proibições de exportação de carne têm o potencial de destruição econômica muito rápido e em grande escala, e os produtores de carne que não lidam com esse risco potencial estão em situação vulnerável. Para ela, o setor de alimentos — e mais especificamente a indústria da carne — deve prestar atenção às ameaças impostas por potenciais proibições de exportação ou arriscar um possível golpe nos seus lucros. Finalmente, Lettini afirma que os investidores do setor também podem desempenhar um papel na proteção de seus ativos, exigindo maior progresso da indústria e das empresas em questões como segurança alimentar, antibióticos e bem-estar animal.

A Associação dos Fiscais da Defesa Agropecuária do Estado do Paraná (Afias-PR) acrescenta à análise de Maria Lettini a imperiosa e inevitável promoção, por parte do Poder Público, de fiscalização agropecuária de excelência — e não a que só existe na “propaganda de governos de plantão”, prejudicada pela interferência da política partidária (nomeações de comissionados de confiança), enfraquecida pela ingerência do setor privado, adulteração da segurança alimentar como “lógica de mercado”, falha pela ausência de adequado investimento público, não eficiente pela falta de política de Estado permanente e de longo prazo etc.

 

Criadores de gado dos EUA ainda usam antibióticos que são cruciais para a saúde humana

Segundo a reportagem US farms still using antibiotics which are 'crucial' for human health do Sustain de 24 de setembro de 2018, os resultados dos testes de amostras de carne mostraram que antibióticos poderosos, que deveriam ser reservados para a saúde humana, estão sendo usados ​​em fazendas de gado em todo os EUA, apesar de no ano passado terem sido introduzidas regras para limitar sua utilização.

O The Guardian relata que testes feitos em milhares de amostras de carne pelo Food Safety and Inspection Service (FSIS) do United States Department of Agriculture (USDA), mostram que não houve redução na quantidade do uso de antibióticos, desde que os novas regras entraram em vigor em janeiro de 2017. As novas regras da Food and Drug Administration (FDA) proíbem usar antibióticos apenas para engordar os animais; prática que era comum em fazendas industriais de criação. 

Segundo a notícia, é importante que os antibióticos não sejam rotineiramente usados ​​em animais (e, portanto, ingressem na cadeia alimentar da população), porque aumenta a resistência humana aos antibióticos. Os produtores de carne responderam ao jornal britânico The Guardian "alertando que as restrições aos antibióticos poderiam pôr em risco o bem-estar animal". Um porta-voz do North American Meat Institute disse: "Os resíduos de antibióticos são extremamente raros e a carne é segura. Fazer quaisquer outras conclusões abrangentes de saúde pública a partir dos dados de teste de resíduos é inadequado e irresponsável". No entanto, médicos especialistas grupos de pressão contra o uso indiscriminado de antibióticos afirmam que as descobertas do FSIS mostraram que é preciso fazer mais e as empresas de carne devem pressionar os criadores a reduzirem o uso de antibióticos.

A Sustain co-fundou a Save Our Antibiotics que promove campanhas para impedir o uso excessivo de antibióticos na criação de animais. A notícia também disponibiliza a comparação entre o uso de antibióticos em animais entre as fazendas de criação do Reino Unido e dos EUA.

______________

1 Artigo publicado pela primeira vez na revista IR Magazine.

Modificado em 6-10-2018 em 20:08

 

Notícias vinculadas:

10-10-2018 - Poultry World & Global Coalition for Animal Welfare launched [Seven multi-national food companies have this week launched the Global Coalition for Animal Welfare with the aim of providing a roadmap for change next year]

5-10-2018 - Poultry World & EC to take action on broiler welfare [EU Internal Market and Industry Commissioner Elizabeth Bienkowska has committed the European Commission to develop more animal welfare indicators and promote funding to higher welfare chicken farming subsidies through the Common Agricultural Policy]

27-9-2018 - Sustain & Government plans to avoid EU ban on farmers using preventative antibiotics [The Alliance to Save Our Antibiotics - convened by Sustain, Compassion in World Farming and the Soil Association - expresses dismay at plans for the UK to continue to allow routine use of farm antibiotics after Brexit, despite an imminent EU-wide ban on this dangerous practice]

 

Credito imagem: Pexels

 

24-9-2018 - Sustain & US farms still using antibiotics which are 'crucial' for human health [Meat sample tests show that powerful antibiotics which should be reserved for human health are being used on livestock farms across the US despite rules being brought in last year to limit their use]

19-9-2018 - The Guardian & Crucial antibiotics still used on US farms despite public health fears [Tests at meat packing plants show no reduction in drugs, a year after new rules to clamp down on overuse]

12-9-2018 - Rede Brasil Atual & Exportar animais vivos é cruel. E mau negócio para o Brasil ["Animais vivos são exportados porque pequena parcela de pecuaristas deseja lucrar base na tortura e sofrimento deles, o que é proibido por lei", diz advogada. E o país ainda perde empregos e arrecadação]

7-9-2018 - Food Safety News & FSA study reveals antibiotic-resistant bacteria levels in pork and chicken

12-7-2018 - GlobalMeat & EMS Rural Exports 'suspended' in ongoing Australia sheep scandal [Australia's Department of Agriculture and Water Resources has suspended the live export licence of a second livertock compny as the sheep scandal eidens]

19-6-2018 - Sustain & Big pharmaceutical companies are using social media campaigns to muddy the waters on overuse of antibiotics in farming [Big pharmaceutical companies are using social media campaigns to muddy the waters on overuse of antibiotics in farming] 

7-6-2018 - GlobalMeat & Eastern Europe discusses antibiotic resistance

15-5-2018 - Associação dos Fiscais da Defesa Agropecuária do Estado do Paraná (Afisa-PR) & União Europeia (UE) publicou o Regulamento de Execução (UE) 2018/700 contra a carne do Brasil [O Anexo do Regulamento de Execução (UE) 2018/2017 discrimina a relação dos frigoríficos brasileiros que deixaram de se enquadrar no art. 12 do Regulamento (CE) nº 854/2004 da União Europeia, portanto, impedidos de exportar carne. O Estado do Paraná, líder na produção de carne de frango, é o maior prejudicado!]

15-5-2018 - Medium Corporation & The export factor: Investors warned of vulnerabilities in meat supply chain

4-5-2018 - Global Meat News & Antibiotic reduction in Danish pig industry

5-3-2018 - Sustain & Resistance to banned antibiotics found in EU meat [A resistance to antibiotics that are needed to treat serious diseases in humans has been found in meat in the food chain according to a European Union summary report on antimicrobial resistance in humans, animals and food]

8-3-2018 - Global Meat News & Danish pork industry works on antibiotic-free pork production

8-2-2018 - The Guardian & Huge levels of antibiotic use in US farming revealed [Concerns raised over weakened regulations on imports in potential post-Brexit trade deals]

30-1-2018 - The Bureau of Investigative Journalism & A game of chicken: how Indian poultry farming is creating global superbugs

30-1-2018 - The Bureau of Investigative Journalism & Six things to know about the global superbug crisis - in charts

17-1-2014 – The Guardian & Death at sea of 4,200 Australian sheep prompts new call for live exports ban [Department of Agriculture finds the sheep died largely from heat stress on a ship bound for Qatar and the United Arab Emirates] 

 

Veja também o  Facebook da Afisa-PR e   @AFISAPR da Afisa-PR