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Agrotóxicos como fenômeno social

Existe um outro fenômeno social igualmente destrutivo: o uso e o comércio indiscriminado e irresponsável de agrotóxicos

 
 
Agrotoxicos como fenomeno social Afisa PR

 

Em agosto de 2016, o engenheiro e sociólogo Eduardo Alcântara Vasconcellos, especialista na análise de dados sobre o trânsito nas cidade, disse à Folha de S.Paulo que "É difícil encontrar na história do Brasil, fora a escravidão, um fenômeno social tão destrutivo quanto a motocicleta". Com base nisso, vamos além. Existe um outro fenômeno social igualmente destrutivo: o uso e comércio indiscriminado e irresponsável de agrotóxicos. A região Sul, por exemplo, consumiu 23% do total de agrotóxicos comercializados no Brasil em 2013. Mais da metade dos agrotóxicos foi consumida no Paraná (158 mil das 285 mil toneladas comercializadas na região) nas culturas de soja, milho, trigo, arroz , e fumo – esta, a que mais utiliza veneno. O estado citado é o maior fornecedor de fumo do país, e sobre o notório uso indiscriminado e irresponsável de agrotóxicos nas regiões produtoras do fumo, recaí a crível relação da depressão e "bomba-relógio" de suicídios.

A classe que domina o chamado agronegócio, evidentemente, atua na desregulamentação do setor para aumentar o consumo de agrotóxicos pela uso e o comércio de agrotóxicos pela "simplificação e rapidez" no registro de novos produtos comerciais, por ela chamados de "produtos fitossanitários". Até chegou a tramitar no Senado um projeto de lei (posteriormente arquivado) que queria abolir o termo agrotóxico consagrado na legislação vigente aplicada ao registro, comércio, controle, fiscalização etc. e substituí-lo por "produto fitossanitário".

Recentemente, a agência responsável pelo registro de agrotóxicos divulgou um relatório "sobre resíduos de agrotóxicos em alimentos". Esse relatório foi severamente criticado pelos setores sociais preocupados com os resíduos agrotóxicos acima do permitido que chegam nos alimentos consumidos pela população. Segundo esses críticos, a análise "salientou apenas as situações de risco de contaminação aguda, ignorando o perigo de contaminação crônica pelo acúmulo de agrotóxicos pelo organismo das pessoas, numa exposição prolongada". A principal manchete destacada na divulgação do relatório em questão foi a de que "quase 99% das amostras de alimentos analisadas" entre o "período de 2013 e 2015" estão "livres de resíduos de agrotóxicos que representam risco agudo para a saúde" Essa divulgação, obviamente, não pode ser aceita sem contestação, pois insinua que, em tese, "99% dos alimentos produzidos no Brasil estão livres de resíduos nocivos de agrotóxicos".

Determinado fórum que congrega comissionados vinculados aos governos de passagem pelo poder , que congrega "executores" da fiscalização agropecuária pública, ou seja, alinhado às demandas do agronegócio, manifestou sua oposição à letra do samba enredo da Imperatriz Leopoldinense, que denuncia o uso irresponsável de agrotóxicos.

A ânsia na defesa do interesse privado é tanta que a autarquia responsável pela fiscalização agropecuária pública do Paraná, fez publicar a oposição desse fórum em sua página oficial, ocorrência que é contestada por esta associação de classe, pois o mínimo que se espera de um órgão público que atua com  fiscalização com poder de polícia administrativa contra o comércio de agrotóxicos, é autonomia, imparcialidade e atuação em defesa do interesse público, sem tomar lado, visto que sua obrigação restringe-se a fazer cumprir a legislação que rege o uso e comércio de agrotóxicos no Paraná.

É claro que as partes interessadas no aumento do uso e comércio de agrotóxicos mantém relações institucionais, digamos assim, com setores da política partidária, com entidades que representam o agronegócio, com setores públicos e com certa categoria profissional, cujos profissionais, em expressivo número, foram transformados em vendedores de agrotóxicos (muitos assim são registrados em suas carteiras de trabalho para evitar o pagamento do salário mínimo profissional. Suas receitas (estratagema documental que confere um verniz de "legalidade" e de "uso responsável") não atendem satisfatoriamente o seu propósito, ou seja, o interesse agronômico, pois a prevalência é mero comércio. 

Modificado em 5-11-2018 em 00:06

 

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9-11-2018 - Associação dos Fiscais da Defesa Agropecuária do Estado do Paraná (Afisa-PR) & O relatório da ONU contra os agrotóxicos não pode ser esquecido ["Usar mais agrotóxicos não tem nada a ver com a eliminação da fome. Segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), somos capazes de alimentar 9 bilhões de pessoas hoje. A produção está definitivamente aumentando, mas o problema é a pobreza, a desigualdade e a distribuição [de alimentos]". — Hilal Elver, relatora especial da ONU sobre o direito à alimentação & The UN report against pesticides can't be forgotten & "Using more pesticides has nothing to do with the elimination of hunger. According to the United Nations Food and Agriculture Organization (FAO), we're able to feed 9 billion people today. The production is definitely increasing, but the problem is poverty, inequality and distribution [of food]". — Hilal Elver, UN Special rapporteur on the right to food]