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Opinião da Direx: o gravíssimo problema do agrotóxico paraquate

É inaceitável que a avaliação toxicológica do conhecidíssimo agrotóxico paraquate tenha se arrastado desde 2008! Este agrotóxico "foi produzido pela primeira vez, com propósitos comerciais pela Sinon Corporation, em 1961 para ICI, (atualmente pela Syngenta) e é hoje um dos herbicidas mais usados". Em uso há 56 anos, sua toxicologia — toxicodinâmica e toxicocinética — para os  seres humanos há muito tempo é amplamente conhecida

 

 

Segundo a notícia Anvisa finaliza reavaliação toxicológica do Paraquate da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) de 19 de setembro de 2017, a deliberação é "pelo banimento do herbicida após três anos de prazo para transição". Porém, chama muito a atenção o tempo dispensado à reavaliação toxicológica do conhecidíssimo paraquate, iniciada em 2008.

O agrotóxico paraquate "foi produzido pela primeira vez, com propósitos comerciais pela Sinon Corporation, em 1961 para ICI, (atualmente pela Syngenta) e é hoje um dos herbicidas mais usados". Em uso há 56 anos, sua toxicologia — toxicodinâmica e toxicocinética — para os  seres humanos há muito tempo é amplamente conhecida.

A Public Eye da Suíça, por exemplo, divulgou o relatório intitulado Paraquat/Unacceptable health risks for users (january 06/Rev. 1), antes mesmo do início da reavaliação toxicológico do paraquate pela Anvisa.

Os resultados sumarizados desse relatório podem ser lidos abaixo.

O fato é que os órgãos governamentais responsáveis precisam avaliar os riscos nas condições prevalecentes de uso de agrotóxicos perigosos. Esses órgãos têm a obrigação institucional de identificarem as medidas capazes de reduzir os riscos de agrotóxicos e considerarem o imediato cancelamento daqueles que oferecem inaceitáveis riscos para os trabalhadores, ainda mais quando os padrões de proteção disponíveis não sejam suficientes para minimizarem esses riscos. Na maioria dos países e, lamentavelmente, no Brasil, é o caso do conhecidíssimo agrotóxico paraquate.

Depois de quase 60 anos de amplo conhecimento toxicológico do agrotóxico paraquat, é inaceitável que sua avaliação toxicológica  arraste-se desde 2008 e, o que é pior, ao seu término tenha sido anuída uma carência suplementar de três anos para sua proibição no país. 

 

Lobby formiert sich

Executive summary

 

The chemical herbicide paraquat is used by a large number of farmers and plantation workers. Paraquat is acutely toxic, causes a large amount of suffering and cannot be used safely under common working conditions. Paraquat should be phased out with immediate effect.

Paraquat can be absorbed by the skin, especially if skin has been exposed to the chemical. Acute poisoning may occur, but symptoms are often delayed. Damage to the lungs, for example, may not be evident until several days after absorption. There is no antidote against paraquat poisoning.

Localised skin damage or dermatitis, eye injury and nose bleed occur frequently among paraquat users, requiring medical treatment that is often not available.

Long-term exposure to low doses of paraquat is linked to changes in the lung and appears to be connected with chronic bronchitis and shortness of breath. Death can result from respiratory failure. Long-term exposure to paraquat has been associated with an increased risk of developing Parkinson's disease.

The level of exposure to paraquat that workers may experience is high enough to lead to absorption of an amount that can result in acute poisoning. High levels of paraquat found in urine of exposed workers indicate a considerable risk of poisoning. Paraquat's potential damage to skin, and its absorption through skin, is therefore serious.

Fatal poisoning at the workplace (excluding accidental or intentional drinking of paraquat) occurred mostly when paraquat absorption through skin increased after prolonged contact with undiluted or diluted paraquat solution.

Studies found that contamination of skin occurred through spills of the concentrate or from leaking spraying equipment, and could not be prevented by protective clothing. In many countries a high proportion of paraquat poisonings are not reported.

Birds and mammals have also been affected. Deaths of hares and reduced hatching of birds' eggs may arise from the use of paraquat as recommended.

Legislation on occupational safety and health is weak and not implemented in many countries. Education of workers in practices that reduce the risks of using paraquat, or pesticides generally, has reached only a small proportion of users and often not been ongoing.

Field studies have found that an acceptable exposure limit for operators was exceeded; they point to an insufficient safety margin for those applying paraquat from backpack sprayers. Protective equipment often cannot be afforded, is unavailable, or inappropriate and impractical to wear in a hot, humid tropical climate.

General working conditions are frequently incompatible with guidelines for chemical safety, especially in developing countries. During the handling and spraying of pesticides, the potential for high exposure is continually present. All these factors lead to a high risk for workers.

The application of paraquat, and other pesticides in WHO class Ia, Ib or II, by workers who use manual sprayers and who are largely unprotected, poses unacceptable risks to health.

The problem of suicides by the misuse of pesticides is different from that of unintentional poisonings in the workplace. Different measures are required to address both issues.

Governments need to assess the risks of hazardous pesticides under prevailing conditions of use. They should identify measures for reducing risk and consider withdrawing the authorisation of products where the risk to users is high, and standards of protection are not sufficient to reduce the risk. For paraquat this continues to be the case in the majority of countries, especially in the South.

Conclusion and key recommendations

This extensive review of the impacts of paraquat, largely from peer-reviewed studies,concludes that the pesticide causes daily suffering to an extremely large number of farmers and workers. Problems resulting from paraquat exposure are found around the world: from the United States to Japan and from Costa Rica to Malaysia. The injuries suffered are debilitating and sometimes fatal. Associated chronic health problems are now being identified. In developing countries in particular, paraquat is widely used under high-risk conditions. Problems of poverty are exacerbated by exposure to hazardous chemicals, as users have no means to protect themselves. Personal protective equipment is not available; it is costly and impossible to wear in hot working conditions. Loss of wages or income from illnesses caused by occupational exposure to pesticides is rarely compensated. While education, training and information are urgently needed to avoid poisonings, the basic problem is the use of high-risk chemicals like paraquat under poor and inappropriate conditions. The report concludes that alternatives are available and their implementation must become a priority, along with a phase out of paraquat. Key recommendations (see page 69 for full recommendations) are:

1. Paraquat should be immediately prohibited in developing countries. This is vital in view of the number of fatal poisonings that have occurred with undiluted and diluted paraquat and the inadequate work safety standards due to lacking resources and tropical climates.

2. As poisonings with paraquat at the workplace also occur in the North, paraquat clearly presents a serious hazard to humans and the environment wherever it is used. It should be phased out in all countries to prevent unacceptable harm.

3. As long as it continues to be marketed, paraquat's trade should be regulated at the international level within the PIC procedure. A number of countries have already decided to ban paraquat or severely restrict its availability, and many companies have prohibited its use in crops they grow or purchase, showing that, showing that there are less hazardous alternatives to paraquat.

4. The World Health Organization should reassess the hazard classification of paraquat.

Ou (em tradução livre):

Sumário executivo

O agrotóxico paraquat é um herbicida usado nas plantações por um grande número de agricultores e trabalhadores. O paraquate é extremamente tóxico, causa um grande quantidade de sofrimento e não pode ser usado com segurança em condições comuns de trabalho. O paraquate deve ser imediatamente proibido.

Em caso de exposição dérmica, o paraquate pode ser absorvido pela pele. Pode ocorrer intoxicação aguda, mas os sintomas muitas vezes aparecem posteriormente. Dano aos pulmões, por exemplo, podem não ser evidentes até vários dias após a absorção. Não há antídoto contra a intoxicação por paraquate.

Dano cutâneo localizado ou dermatite, lesão ocular e sangramento do nariz ocorrem freqüentemente entre os usuários do paraquate, exigindo tratamento médico que muitas vezes não está disponível. A exposição prolongada a baixas doses de paraquat está ligada à alterações no pulmão e parece relacionar-se com bronquite crônica e falta de ar. A morte pode resultar de insuficiência respiratória.

A exposição a longo prazo ao paraquate foi associado a um aumento do risco de Mal de Parkinson.

O nível de exposição ao paraquat que os trabalhadores podem experimentar é alto, o suficiente para ocasionar a absorção de uma quantidade que pode resultar em intoxicação aguda. Níveis elevados de paraquate encontrados na urina dos trabalhadores expostos indicam um considerável risco de envenenamento. O potencial de dano do paraquate à pele e sua absorção através da pele, é, portanto, sério.

Ocorre a intoxicação fatal por paraquate no local de trabalho (excluindo sua ingestão acidental ou intencional) principalmente quando sua absorção ocorre através da pele, e é aumentada após contato prolongado com solução de paraquate diluída ou não diluída.

Estudos descobriram que a contaminação da pele ocorreu através de derrames de paraquate concentrado ou de vazamento do equipamento de pulverização e poderiam não ser prevenidos por roupas de proteção individual. Em muitos países uma alta proporção de intoxicações por paraquat não é oficialmente relatada.

As aves e os mamíferos também são afetados. As mortes de lebres e a redução de incubação de ovos de aves podem resultar do uso inadequado do paraquate.

A legislação em matéria de segurança e saúde no trabalho é fraca e não é implementada em muitos países. A educação dos trabalhadores para o uso de práticas que podem reduzir os riscos do uso de paraquate, ou de agrotóxicos em geral, atingiu apenas uma pequena proporção de usuários e, muitas vezes, não está em andamento.

Estudos de campo descobriram que um limite de exposição aceitável para os trabalhadores foi excedido; eles apontam para uma margem de segurança insuficiente para aqueles que aplicam paraquate via pulverizadores costais. O equipamento de proteção individual muitas vezes não é oferecido, não está disponível ou seu uso é inapropriado e impraticável em clima tropical quente e úmido.

As condições gerais de trabalho são frequentemente incompatíveis com diretrizes de segurança para agrotóxicos, especialmente nos países em desenvolvimento. Durante o manuseio e a pulverização de agrotóxicos, está continuamente presente alto potencial de exposição. Todos esses fatores levam a um alto risco para os trabalhadores.

A aplicação de paraquat e outros agrotóxicos da classe Ia, Ib ou II da OMS, por trabalhadores que utilizam pulverizadores manuais e que são amplamente desprotegidos, traz riscos inaceitáveis ​​para a saúde.

O problema dos suicídios pelo uso indevido de agrotóxicos é diferente do de intoxicações involuntárias no local de trabalho. São necessárias diferentes medidas para resolver ambos os problemas.

Os governos precisam avaliar os riscos nas condições prevalecentes de uso de agrotóxicos perigosos. Eles devem identificar medidas para reduzir o risco e considerar cancelar o registro de agrotóxicos em que o risco para os trabalhadores é alto e os padrões de proteção não são suficientes para reduzir o risco. Para o paraquate, este continua a ser o caso na maioria dos países, especialmente no [Hemisfério] Sul.

Conclusão e principais recomendações

Esta extensa revisão dos impactos do paraquat, em grande parte a partir de estudos revisados por pares, conclui que este agrotóxico causa sofrimento diário a um número extremamente grande de agricultores e trabalhadores. Os problemas resultantes da exposição do paraquat são encontrados em todo o mundo: dos Estados Unidos ao Japão e da Costa Rica para Malásia. As lesões sofridas são debilitantes e às vezes fatais. Os problemas crônicos de saúde associados estão agora sendo identificados. Nos países em desenvolvimento, em particular, o paraquat é amplamente utilizado em condições de alto risco. As condições de pobreza exacerbam os problemas de exposição aos agrotóxicos perigosos, já que os trabalhadores não têm meios para se protegerem. O equipamento de proteção individual não está disponível; é dispendioso e, em clima quente, é impossível de ser usado em condições de trabalho. Perda de salário ou renda causada devido à exposição ocupacional aos agrotóxicos raramente é compensada. Enquanto a educação, o treinamento e a informação são urgentemente necessárias para evitar intoxicações, o problema básico é o uso de agrotóxicos de alto risco como paraquate em condições precárias e inadequadas. O relatório conclui que alternativas estão disponíveis e suas implementações devem se tornar uma prioridade, juntamente com a revisão da situação do paraquate. As principais recomendações (veja a página 69 para obter as recomendações completas) são:

1. O paraquate deve ser imediatamente proibido nos países em desenvolvimento. Isto é vital em vista de o número de intoxicações fatais que ocorreu com o agrotóxico paraquate não diluído e diluído e os padrões inadequados de segurança do trabalho devido à falta de recursos e uso em climas tropicais.

2. Como as intoxicações pelo agrotóxico paraquat no local de trabalho também ocorrem no [Hemisfério] Norte, este claramente apresenta um sério perigo para os seres humanos e ao ambiente onde quer que seja usado. Deveria ser eliminado em todos os países para evitar danos inaceitáveis.

3. Enquanto continuar registrado, o comércio do paraquat deve ser regulado no nível internacional dentro do procedimento PIC. Um grande número de países já decidiu proibir o paraquat ou restringir severamente a sua disponibilidade, e muitas empresas proibiram o seu uso em culturas que cultivam ou compram, mostrando que existem alternativas menos perigosas para o paraquate.

4. A Organização Mundial da Saúde deve reavaliar a classificação de perigo do paraquat.

Modificado em 14-11-2018 em 08:25

 

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