Opinião da Direx: Indicações da política partidária, corruptores, corrompidos, “autofiscalização” privada da carne etc.

Afisa-PR

Opinião da Direx: Indicações da política partidária, corruptores, corrompidos, “autofiscalização” privada da carne etc.

Diante de tanto descalabro em detrimento da fiscalização agropecuária promovida pelo Poder Público, a Associação dos Fiscais da Defesa Agropecuária do Estado do Paraná (Afisa-PR) reforça seus alertas

 

 

A reportagem Carne Fraca: ‘Eu tinha que fazer caixa com empresários para pagar deputado’, diz delator” (por Catarina Scortecci) de 17 de março, mostra que a esperada delação de Daniel Gonçalves Dias, ex-superintendente da Superintendência Federal da Agricultura do Paraná (SFA-PR) do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), impacta negativamente a “gestão” governamental em curso para a fiscalização agropecuária promovida pelo Poder Público e, sobretudo, a indústria da carne no Brasil que já colhe significativa perda de mercado externo. 

Vejamos algumas partes da delação, segundo a reportagem:

“Eu estou aqui para cooperar, reconhecer meus crimes, meus erros, dizer que o Mapa tem bons profissionais, pessoas competentes, mas tem muita patologia, não só no Paraná, mas em todo Brasil. Envolve servidor público, empresário, político. Corrupção sistêmica”.

“... [Daniel Gonçalves Dias] ele afirma que a JBS pagava de R$ 1 mil a R$ 20 mil a todos os fiscais que trabalhavam nas plantas. E não são poucas plantas”. 

“Mas os relatos que mais interessavam ao processo específico eram aqueles envolvendo a unidade do Mapa em Londrina, segunda maior cidade do Paraná. Juarez José Santana, ex-chefe do Mapa naquele município, é acusado pelo MPF na ação penal de comandar seu próprio esquema de propina na região. Daniel corroborou a narrativa do MPF, durante seu depoimento: ‘Eu recebia todo mês R$ 8.500,00 do Juarez José Santana’”.

Evidencia-se, com base nessas informações, que o esquema era sustentado na nomeação política para ocupação de cargos públicos estratégicos de “gestão” na fiscalização agropecuária, corruptores (setor privado) e corrompidos (setor público) em um ambiente onde, com a anuência da Instância Superior (em clara ofensa ao Decreto 5.741), permite-se a inconstitucional “autofiscalização” da carne pelo setor privado (modus operandi importado?), na qual os frigoríficos contratam e remuneram seus próprios “fiscais” para, em gritante conflito de interesses, “garantirem” a “segurança alimentar” da população e dos consumidores internacionais.

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O abate de animais no Brasil alimenta uma cadeia monstruosa de ilicitudes jurídicas, ambientais, sanitárias e éticas

IHU

O abate de animais no Brasil alimenta uma cadeia monstruosa de ilicitudes jurídicas, ambientais, sanitárias e éticas

Há mais de cinco anos o Brasil exporta animais vivos para abate e o auge dessa prática ocorreu entre 2013 e 2014, “quando as exportações de gado em pé somaram 1,3 milhão de animais embarcados para venda”, informa o biólogo Frank Alarcón na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line

 

Crédito imagem: Karlos Geromy (Secap)

 

Há mais de cinco anos o Brasil exporta animais vivos para abate e o auge dessa prática ocorreu entre 2013 e 2014, “quando as exportações de gado em pé somaram 1,3 milhão de animais embarcados para venda”, informa o biólogo Frank Alarcón na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line. Segundo ele, de acordo com dados doMinistério da Indústria, Comércio e Serviços, no ano passado “a exportação de gado vivo atingiu um total de 400,66 mil animais exportados — um volume 41,9% maior que aquele registrado no ano de 2016” e os principais compradores do gado brasileiro foram Turquia (55,2% do total), Egito (13,29%), Líbano (9,6%) e Jordânia(9,5%).

Embora esse percentual possa parecer elevado, Alarcón diz que ele é pequeno se comparado com o percentual de gado abatido para sustentar o consumo interno. “Por razões estratégicas que visam conquistar o mercado do sudeste asiático e a demanda mundial órfã de animais para abate provenientes da Austrália, maior exportador de animais vivos do planeta, a exportação de animais vivos do Brasil caracteriza-se por ser um pequeno percentual do total de animais produzidos para execução em todo o território nacional. No Brasil são mortos anualmente cerca de 7,6 milhões de bovinos a cada trimestre — algo como um animal por segundo”, diz.

Na entrevista a seguir, o biólogo também chama atenção para as condições de “maus-tratos” a que esses animais são submetidos durante o processo de exportação. “O transporte de animais (seja ele rodoviário ou marítimo) está intrinsecamente ligado à prática de maus-tratos. Animais são transportados em caminhões de um ou dois andares, abarrotados de animais (para economia de transporte, número de veículos e combustível), em viagens extenuantes de centenas de quilômetros desde seu local de quarentena ou criação, em pé, sem que possam comer ou ingerir líquidos de forma adequada”, relata.

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Insegurança alimentar: como a África do Sul é assolada pelo maior surto de listeriose do mundo

Afisa-PR

Insegurança alimentar: como a África do Sul é assolada pelo maior surto de listeriose do mundo

A listeriose, que tem alto índice de mortalidade, causa um impacto devastador em toda a indústria da carne sul-africana. Enquanto isso no Brasil, vários atores fomentam a "autorregulação" privada da carne em prejuízo da segurança alimentar e do interesse público

 

 

Segundo a notícia "Health minister fears world’s worst listeriosis outbreak has yet to peak" (por Dan Flynn) de 16 de março da Food Safety News, o maior surto de listeriose do mundo que ocorre na África do Sul ainda não acabou e provavelmente fará mais vítimas.

Há dez dias, o ministro da saúde da África do Sul, Aaron Motsoaledi, anunciou que a fonte do surto de listeriose é uma planta frigorífica da Tiger Brands Enterprise em Polokwane. Desde então, essa fábrica reconheceu o relatório oficial do departamento de saúde sul-africano que confirma a presença da cepa bacteriana ST6 na sua instalação de Polokwane. A líder do partido socialista Andile Mngxitama, disse que as mortes de surtos equivalem a "assassinato". Ele disse que a Enterprise Foods foi cúmplice em um encobrimento corporativo e merece acusações de homicídio. No Congresso sul-africano, o parlamentar Andile Mngxitama disse que as mortes causadas pela listeriose "equivalem a assassinato". Ainda mais. Ele disse que o fabricante Tiger Brands Enterprise "foi cúmplice em um encobrimento corporativo e merece acusações de homicídio".  

A salsicha tipo "polony" e outras carnes processadas de baixo preço aos consumidores foram retiradas do comércio em toda a África do Sul. As autoridades sul-africanas temem a contaminação cruzada; a carne processada, pronta para comer, é uma fonte favorita de proteína para os pobres sul-africanos.

Os especialistas em segurança alimentar afirmam que os casos de listeriose continuarão a ocorrer até quatro semanas ou mais após o recall da carne processada envolvida, pois o período de incubação da listeriose pode ser de 21 dias com um máximo de 70 dias.

Os resultados positivos em 978 culturas para detecção da bactéria Listeria monocytogenes foram encontrados em 720 amostras de sangue (73%), 211 (22%) amostras do líquido cefalorraquidiano1 e cerca de 7% das amostras de fezes, pus, abscessos ou outros líquidos.

Os países vizinhos da África do Sul como Quênia, Zimbábue, Moçambique, Namíbia e  Zâmbia, proibiram a importação de carne processada da África do Sul. Alguns desses países proibiram também a importação de produtos lácteos e de vegetais sul-africanos. 

O maior surto de listeriose do mundo causa um impacto devastador em toda a indústria da carne da África do Sul.

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Uso de agrotóxicos: A falta de fiscalização e ética profissional aumentam os problemas

IHU

Uso de agrotóxicos. A falta de fiscalização e ética profissional aumentam os problemas

Confira entrevista com Juliano Ritter, Fernando da Silva e Alexandre Russini sobre a necessidade de redução do uso de agrotóxicos

 

Crédito imagem: Alba Sud Fotografia

 

uso de agrotóxicos na produção agrícola é sempre um risco para produtores e consumidores e, por isso, seu uso deve ser reduzido ao máximo. Entretanto, em algumas formas de cultivo o uso zero ainda não é uma realidade. O problema ainda se torna mais grave quando, além do uso de agrotóxicos, é feita uma má aplicação, utilizando substâncias desse tipo sem a menor necessidade. Situação similar a essa ocorre nas lavouras de todo o país, em particular nos campos da fronteira oeste do Rio Grande do Sul. Na sua monografia de Especialização em Produção Vegetal da Universidade Federal do Pampa - Unipampa, Juliano Goulart Ritter detectou que nessa região de alta produção de arroz são usados agrotóxicos indicados para o cultivo de tomate e batata, culturas que sequer existem na fronteira oeste.

Com a orientação dos professores da Unipampa Fernando Felisberto da Silva e Alexandre Russini, a pesquisa aponta que o problema tem duas origens. A primeira é relacionada à falta de fiscalização de órgãos competentes. “Seria necessário ter maior número de fiscais, bem como maior disponibilidade de recursos (veículos, combustível, manutenção, dentre outros fatores), o que prejudica e muitas vezes impossibilita os servidores de realizarem uma fiscalização periódica tanto no sentido de orientação aos produtores, quanto na observação do cumprimento da legislação vigente”, analisam em entrevista por e-mail à IHU On-Line.

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Opinião da Direx: Proteína animal, ilusões e apologia à ilegalidade

Afisa-PR

Opinião da Direx: Proteína animal, ilusões e apologia à ilegalidade

Constitucionalmente, a fiscalização agropecuária promovida pelo Poder Público é atividade típica de Estado e não delegável ao setor privado

 

 

Não vale a pena nos dedicarmos à análise crítica do conteúdo dessa espécie de notícia cuja moldagem, recorrentemente, é disseminada pela mídia corporativa do país. Porém, seu ápice chama a atenção:

A AUTORREGULAÇÃO FUNCIONA (??!!)

A experiência de países em que a iniciativa privada tomou para si a responsabilidade de fiscalizar a cadeia de proteína animal.”

A nociva “autorregulação”, em detrimento do interesse público e de uma atividade exclusiva e não delegável do Poder Público, é o que certas autoridades e certos parlamentares, com o apoio do setor privado – o HIMP” piorado! –, fomentam: trata-se da “autofiscalização” privada, (aliás, uma anomalia já praticada no país ao arrepio da legislação mandatária superior) ou seja, os frigoríficos contratam e remuneram seus próprios “fiscais” – violação veementemente repudiada pela União Europeia (UE).

Aliás, a “experiência” de “autorregulação” promovida nos EUA, suscita gravíssimas críticas dos próprios fiscais agropecuários da carne vinculados ao U. S. Department of Agriculture & Food Safety and Inspection Service (FSIS). Acrescente-se que a “experiência” de “autorregulação” dos EUA já foi alvo de severas críticas de [da legislatura passada] congressistas norte-americanos, afinal ela (por lá sofismada como “prática modernizadora da segurança alimentar”) não pode ser imposta “à custa da saúde pública, da segurança do trabalhador ou do bem-estar animal”.

Diante de tanto descalabro em detrimento da fiscalização agropecuária promovida pelo Poder Público, a Associação dos Fiscais da Defesa Agropecuária do Estado do Paraná (Afisa-PR) reforça seus alertas contra o “estado mínimo” neoliberal privatizante: a “autofiscalização” privada, defendida por certos comissionados de confiança com cargos de decisão, certos parlamentares, certas entidades e lideranças ruralistas e com o apoio do setor privado, sofismada como “autorregulação”, potencializará a corrupção, as operações policiais, as fraudes, a insegurança alimentar, as suspensões, os embargos, os relatórios de auditorias criticamente adversos e a perda do que resta de mercado importador da proteína animal produzida no país. 

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