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Qual é o problema da inspeção da carne?

Segurança alimentar: Com base na reportagem do Food & Water Watch, intitulada "Meat Inspection" de 10 de setembro de 2015

 

 

O tamanho dos frigoríficos e a velocidade de processamento da carne têm aumentado ao longo das últimas décadas, tornando mais difícil garantir que a carne produzida seja segura e saudável para a população.

Nos EUA, conforme o Food & Water Watch, em vez de diminuir o ritmo da produção para garantir o fornecimento de carne segura e saudável, a indústria apela para produtos químicos para tentar desinfetar bactérias como a Salmonella  e esterilizar as fezes que ainda podem estar na carne processada.

O Food & Water Watch luta há anos para manter um forte sistema oficial de inspeção de carne, satisfatoriamente financiado pelo governo americano. O Food & Water Watch também defende que os fiscais do governo não necessários para vigiar a indústria e impedir que potenciais perigos, como a contaminação da carne pelas bactérias Escherichia Coli  e Salmonella, prejudiquem a saúde dos consumidores.

 

A chocante “Chicken Rule” (regra do frango) preconizada pelo USDA

O USDA – Departament of Agriculture dos EUA que implementar um novo programa chamado New Poultry Inspection System (novo sistema de inspeção do abate de aves), mas para o Food & Water Watch, o nome mais apropriado seria “Filthy Chicken Rule” (regra imoral do frango). Caso a nova regra seja implementada, irá privatizar as inspeções do abate de aves, diminuindo o número de fiscais experientes e treinados do USDA nas plantas de abate, que serão substituídos por funcionários não qualificados remunerados pelos frigoríficos produtores. O New Poultry Inspection System também permitiria que as velocidades de processamento na linha de produção passem de 140 carcaças inspecionadas por minuto para 175.

Deste 1998, o New Poultry Inspection System está em vigor nos EUA em algumas plantas piloto de abate, sob o chamado HACCP-based Inspection Model Project (HIMP). Segundo o Food & Water Watch, a maioria dessas plantas piloto abate frangos jovens. O HACCP-based Inspection Model Project (HIMP) também funciona em algumas plantas piloto de abate de perus e de suínos.

Em agosto de 2011, com base no Freedom of Information Act.1, o Food & Water Watch requereu junto ao USDA ensaios de resultados para análise. A análise do Food & Water Watch revelou:

1º) Os funcionários das empresas responsáveis pela “inspeção” deixavam “escapar” muitas carcaças de aves com problemas. A categoria de inspeção que teve a maior taxa de erro (chamada “Other Consumer Protection 4”) foi justamente aquela que seria a responsável pela detecção de vários problemas, tais como penas, pulmões, glândulas de óleo, traqueia e bile ainda presentes nas carcaças de aves. A taxa de erro média para esta categoria nas instalações de abate de frango foi de 64% em instalações de abate de peru foi de 87%. Em uma instalação de abate de peru, o Food & Water Watch revelou que quase 100% de amostras com defeitos foram encontradas nessa categoria de inspeção.

2º) Os dados mostraram uma grande variação no número de defeitos ignorados pela “inspeção” privada entre as plantas de abate analisadas, fato que evidencia que não há satisfatória consistência na cadeia de produção como um todo.

3º) Em 14 plantas analisadas, a esmagadora maioria dos registros de não conformidade era devida à contaminação fecal das carcaças. De março a agosto de 2011, foram verificados 229 casos de não conformidade, e 208 (90%) correspondiam à contaminação fecal das carcaças que eram visíveis, porém, foram ignoradas pelos funcionários “inspetores” das empresas.

O Government Accountability Office (GAO)2 tem questionado os resultados do projeto piloto preconizado pelo USDA.  O relatório, solicitado pelo senador Kirsten Gillilbrand (D-NY), avaliou 20 frangos e 5 perus jovens, revelou escancaradas falhas metodológicas contra o projeto piloto privaticionista. O GAO questionou como o USDA poderia sustentar, com base nas falhas evidenciadas no seu projeto piloto, a ampliação do modelo de inspeção privatizada para toda a indústria avícola dos EUA.

 

A Food & Water Watch questiona a inspeção privatizada do abate de aves nos tribunais do EUA

Nos EUA pelo menos as autoridades governamentais adotam preventivamente projetos pilotos que servem para avaliar como se comporta a inspeção privatizada de produtos de origem animal. E no Brasil? Sem muita discussão, a Câmara dos Deputados leva adiante o projeto de lei nº 334/2015 que, sumariamente e sem as necessárias discussões legais e técnicas com os fiscais agropecuários do setor, almeja privatizar a inspeção de produtos de origem animal. A privatização proposta pelo projeto de lei nº 334/2015 é contrária ao SISBI/POA – Sistema de Inspeção Brasileiro de Produtos de Origem Animal, à organização do SUASA – Sistema Unificado de Atenção à Sanidade Agropecuária e, principalmente, ao interesse público em segurança alimentar.

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1 O Government Accountability Office (GAO) é uma agência governamental que fornece auditoria, avaliação e serviços de investigação para o Congresso dos EUA. O GAO é a instituição suprema de auditoria do governo federal dos EUA. 

2 O Freedom of Information Act (FOIA), 5 USC § 552 , é uma lei federal de liberdade de informação que permite a divulgação completa ou parcial de informações inéditas e documentos controlados pelo governo dos EUA. 

 

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Não ao projeto de lei 334/2015!

Alerta da Afisa-PR

 

Os EUA, um país desenvolvido, enfrenta sérias dificuldades com o seu sistema privatizado de inspeção de produtos de origem animal. Porém, no Brasil, sem muita discussão, vistoso lobby pretende impor a inspeção de produtos de origem animal privatizada, terceirizada e até mesmo quarteirizada, que ficará “sob a responsabilidade” dos funcionários pagos pela indústria para que “garantam” a segurança dos produtos produzidos.

O Brasil, infelizmente, é um país potencialmente perigoso para a desregulamentação do sistema de inspeção de produtos de origem animal. Não obstante, tramita na Câmara dos Deputados o projeto de lei nº 334/2015 que intenciona privatizar a segurança alimentar da população brasileira. Esta é uma proposta muito perigosa para a saúde pública.

Para a Afisa-PR, a inspeção de produtos de origem animal realizada por experientes e treinados fiscais agropecuários é fundamental para o abastecimento alimentar seguro. A desregulamentação dessa importantíssima atividade da defesa agropecuária, pela privatização, terceirização e até mesmo quarteirização, é um risco que não se pode admitir. Para as autoridades governamentais, senadores e deputados federais, os brasileiros não precisam de alimentos de origem animal seguros e saudáveis?

 

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