Food Integrity Campaign Blog

Nos EUA, diretora da Food Integrity Campaign crítica a privatização da inspeção de produtos de origem animal

Amanda Hitt* 

 

 

[Tradução livre] Vamos ser apenas claros sobre isso. O novo modelo de inspeção de carne suína não é modernização; trata-se de privatização. Recentemente, o assessor da [Secretaria de Segurança Alimentar] Secretary for Food Safety do [Departamento de Agricultura dos EUA] U. S. Department of Agriculture, Alfred Almanza, parece que tem muito a dizer sobre a modernização do sistema de inspeção preconizado pelo USDA. Pelo que tenho lido, parece que o Sr. Almanza pretende expandir o modelo de inspeção de alta velocidade usado em aves para os suínos. Ele divulga o sistema de inspeção de alta velocidade como “moderno” e que produz uma maior eficiência no local de trabalho, mesmo declarando publicamente (mais de uma vez) que há “melhora nos resultados de saúde pública”. Mas o que ele não diz é que esta eficácia apresenta um preço: um preço pago pelos trabalhadores, animais e meio ambiente. E que há preocupações de saúde pública que não foram abordadas e que são associadas a este novo modelo de inspeção.

O que o Sr. Almanza considera uma solução moderna é um presente para a indústria pelo aumento da quantidade de suínos abatidos, enquanto ao mesmo tempo há redução da inspeção do governo. Isto para mim não soa como uma boa ideia, e eu não sou a única a enxergar assim.

Centenas de milhares de consumidores, inúmeras ONGs, e até mesmo membros do Congresso têm falado em oposição à expansão do novo modelo de inspeção para a indústria de carne suína (incluindo o pedido da Hormel, que abandonou o programa em três plantas piloto de inspeção de alta velocidade). Estes variados grupos questionam a eficácia do [privaticionista] modelo de alta velocidade, mas apesar de todo o ceticismo, o USDA continua a venerar o [privaticionista] seu programa de inspeção de carne suína. Por quê? Porque o programa é um benefício para a indústria de carne suína, a qual o USDA está cada vez mais em dívida.

Eles estão dando as chaves do castelo. Isto é o dizem os fiscais do USDA que acompanham os programas piloto de inspeção de alta velocidade. Nessas plantas piloto, os fiscais altamente treinados do USDA perderam suas funções que foram  transferidas aos não treinados empregados da indústria. As velocidades aceleradas (1.300 carcaças de suínos por hora) tornam difícil a adequada inspeção das carcaças, e os consumidores sofrem as consequências.  Os fiscais do governo questionam a qualidade da carne que chegam às prateleiras dos supermercados, e eles também relatam que são muitas vezes impotentes diante dessa situação. Um fiscal disse a [um programa do GAP] Food Integrity Campaign do Government Accountability Project (GAP)1 que as linhas de processamento “correm tão rápido que é impossível ver qualquer coisa nas carcaças”. Na verdade, alguns fiscais não irão comer a carne produzida nas plantas piloto de inspeção de alta velocidade.

[Como sustenta o USDA] Muito moderna - a inspeção de alta velocidade é bárbara. A unidade de lucro muitas vezes dificulta o julgamento humano, e a dura gestão da fábrica conduz rotineiramente os empregados e os animais. Um recente vídeo secreto mostra questões contra o bem-estar dos animais em uma planta de inspeção de alta velocidade, e isso torna claro o quão importante é a inspeção do governo. Quando os fiscais do governo estavam fora de vista, os animais foram maltratados. Além da supervisão, o grande volume de suínos processados nessas plantas piloto é uma receita para o desastre no local de trabalho. O “breakneck” (ritmo acelerado) nas linhas de inspeção de alta velocidade, com  movimentos repetitivos, resulta em incapacitantes acidentes de trabalho.

Caso o USDA deseja dar um toque de “modernidade” em seus velhos hábitos, ele deve tentar algo novo e diferente - como ouvir seus próprios fiscais. Os fiscais do USDA denunciantes têm uma longa lista de preocupações sobre o que acontece quando a indústria é autorizada a inspecionar a si mesma, e o público está prestando atenção. Deixar a indústria inspecionar a si mesma e permitir graves ameaças à integridade dos alimentos estão longe das exigências dos consumidores modernos. Na verdade, o nosso governo precisa apanhar rapidamente com os tempos atuais.

* Amanda Hitt é diretora da Food Integrity Campaign, um programa do Government Accountability Project (GAP)

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1 O Government Accountability Project (GAP) foi criado nos EUA em satisfação aos vários denunciantes. Desde 1977, quando foi criado, o GAP tem servido como uma tábua de salvação para os funcionários públicos conscientes e os ajudou a liberar informações críticas que serve o interesse público e o bem comum. A missão do GAP é garantir governo e responsabilidade corporativa, avançando a liberdade de expressão ocupacional, exercer a defesa dos denunciantes e apresentar as preocupações que verificaram às autoridades competentes, grupos ou jornalistas. O GAP tornou-se não só uma proeminente organização de suporte aos denunciantes, mas também em uma importante organização governamental e de responsabilidade corporativa, tanto nacional como internacionalmente.

 

Notícia relacionada

11/4/2016 - Food Integrity Campaing Blog & USDA, CONFUSING MODERNIZATION WITH PRIVATIZATION?

 

Não ao PL nº 334 de 2015

Nota da Afisa-PR

 

Os EUA, um país desenvolvido, enfrenta sérias dificuldades com o seu sistema privatizado de inspeção de produtos de origem animal. Porém, no Brasil, sem muita discussão, vistoso lobby pretende impor a inspeção de produtos de origem animal privatizada, terceirizada e até mesmo quarteirizada, que ficará “sob a responsabilidade” dos funcionários pagos pela indústria para que “garantam” a segurança dos produtos produzidos.

O Brasil, infelizmente, é um país potencialmente perigoso para a desregulamentação do sistema de inspeção de produtos de origem animal. Não obstante, tramita na Câmara dos Deputados o projeto de lei nº 334/2015 que intenciona privatizar a segurança alimentar da população brasileira. Esta é uma proposta muito perigosa para a saúde pública.

Para a Afisa-PR, a inspeção de produtos de origem animal realizada por experientes e treinados fiscais agropecuários é fundamental para o abastecimento alimentar seguro. A desregulamentação dessa importantíssima atividade da defesa agropecuária, pela privatização, terceirização e até mesmo quarteirização, é um risco que não se pode admitir. Para as autoridades governamentais, senadores e deputados federais, os brasileiros não precisam de alimentos de origem animal seguros e saudáveis?

 

Veja também:  Facebook da Afisa-PR &   @AFISAPR da Afisa-PR