Imagem "The Washington Post" - The Post's Lena Sun visited Walter Reed Army Institute of Research in Silver Spring, Md., where scientists there identified a strain of bacteria resistant to the last-resort antibiotic, colistin. The bacteria was found in a Pennsylvania woman. Microbiologist Patrick McGann explains how his team identified the gene that gives the bacteria this resistance (Monica Akhtar, Lena Sun/The Washington Post).

 

Pela primeira vez no Brasil, o gene mcr-1 foi detectado em uma estirpe da bactéria Escherichia coli (isolado a partir de infecção no pé de um paciente diabético). O gene mcr-1 já tinha sido identificado no Brasil em cepas da bactéria Escherichia coli isoladas de animais de produção.

Nas bactérias, o gene mcr-1 é incorporado ao seu plasmídeo, um pequeno pedaço de DNA que existe independente do genoma, que pode se propagar a partir de uma bactéria para outra, disseminando-se a resistência.

O gene mcr-1 causa resistência a uma classe de antibióticos específicos ao tratamento de infecções por bactérias multirresistentes. Recentemente, também foi descoberto na China, nos EUA e também é encontrado em países da Europa, da Ásia e da África.

 

Escherichia coli vive habitualmente dentro dos intestinos dos mamíferos

 

A Escherichia coli, também chamada de E.coli, é uma bactéria que vive habitualmente dentro dos intestinos dos mamíferos. Os humanos eliminam diariamente nas fezes trilhões de bactérias do tipo Escherichia coli. Por isso, são comuns as pesquisas de coliformes fecais para avaliar a qualidade da água e dos alimentos (à procura da E.coli, cuja presença indica contaminação da água ou dos alimentos por fezes).

Mas se a Escherichia coli vive normalmente nos intestinos de todos os mamíferos, por que de tempos em tempos ouvimos falar de doenças causadas por esta bactéria? O problema é que existem diferentes cepas de Escherichia coli, sendo algumas delas capazes de causar doenças mesmo quando restritas aos intestinos. Existem várias cepas diferentes de E. coli responsáveis por quadros de diarreia, com diferentes graus de gravidade. Todas elas são adquiridas após ingestão de água contaminada com fezes. A contaminação através de alimentos também é comum e se dá por vegetais regados ou lavados com água contaminada, alimentos crus, malcozidos ou preparados por cozinheiros ou açougueiros que não lavam as mãos adequadamente após evacuarem. A carne também pode se contaminar no momento do abate, ainda antes de chegar ao açougue ou supermercado.

Assim sendo, a contaminação por E. coli pelos alimentos é a forma mais comum. A E. coli costuma ficar no alimento por alguns dias antes deste ser ingerido, há tempo das bactérias se multiplicarem. Quanto maior a quantidade de bactéria ingerida, maior as chances de intoxicação alimentar. A contaminação imediatamente antes do consumo por mãos contaminadas (geralmente do cozinheiro) também é possível (https://goo.gl/lG7ebe).

 

Agência FAPESP

 

Segundo notícia da Agência FAPESP, intitulada "Encontrada no Brasil bactéria resistente a um dos mais poderosos antibióticos", de 12 de agosto de 2016, pesquisadores do ICB-USP – Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo reportaram o primeiro caso de infecção humana no Brasil, em um hospital de alta complexidade em Natal, Rio Grande do Norte, por uma cepa da bactéria portadora do gene mcr-1 e resistente ao antibiótico (com potente ação sobre várias bactérias gram-negativas) polipeptídeo polimixina E1 (colistina), considerado como último recurso no tratamento de infecções produzidas por bactérias que não respondem a outros antibióticos.

Responsável pela pesquisa "Monitoramento de bactérias Gram-negativas multirresistentes de importância médica (humana e veterinária): impacto clínico/ambiental e desenvolvimento de alternativas terapêuticas e produtos de inovação tecnológica", realizada com apoio da FAPESP – Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, o pesquisador Nilton Lincopan2 disse à 'Agência FAPESP" que "A aparição desse gene no Brasil pode contribuir para o surgimento de bactérias totalmente resistentes aos antibióticos, com risco de enfrentarmos uma situação similar ao que foi a era pré-antibiótica, quando doenças comuns, como uma infecção urinária ou um ferimento profundo na pele, levavam facilmente a óbito".

Os resultados da pesquisa foram publicados nas revistas científicas Eurosurveillance, do European Centre for Disease Prevention and Control e Antimicrobial Agents and Chemotherapy, da American Society for Microbiology.

 

Superbactérias

 

A polimixina E (colistina) é um potente antibiótico bactericida polipeptídio cíclico, descoberto em 1949 e extraído do Bacillus colistinus usado contra bactérias multi-resistentes. Pode ser encontrado combinada com sulfato (mais potente, mas muito tóxico) ou com sódio (menos potente e menos tóxico). Possui ação anti-endotoxina (lipídeo A e LPS) prevenindo o choque séptico

A produção de polimixina E (colistina) foi descontinuada entre a década de 1970 e o ano 2000 por sua elevada toxicidade, desta forma, este antibiótico ficou restrito ao uso veterinário amplamente utilizado na avicultura e suinocultura.

No início deste século, com a emergência de bactérias produtoras de enzimas responsáveis por provocar resistência a praticamente todos os antibióticos beta-lactâmicos, como as penicilinas, a polimixina E (colistina) voltou a ser utilizada como última alternativa terapêutica no tratamento de infecções produzidas por microrganismos multirresistentes, principalmente associadas a surtos de infecção hospitalar.

O pesquisador Nilton Lincopan disse à "Agência FAPESP" que "Por muito tempo, [...] a comunidade científica internacional acreditou que o desenvolvimento da resistência bacteriana a Colistina seria um processo difícil. Porém, ao final do ano passado, um artigo alarmante foi publicado na revista Lancet Infectious Diseases, em que pesquisadores chineses descreveram a identificação de um novo gene (o mcr-1) que confere resistência contra polimixina E e polimixina B".

Segundo a "Agência FAPESP" é "Ainda mais preocupante, de acordo com o pesquisador, foi a descoberta de que o gene é facilmente transferível de uma espécie bacteriana a outra por meio de plasmídeos, fragmentos de DNA extracromossômicos que podem se replicar autonomamente e que podem ser transferidos entre diferentes espécies bacterianas por conjugação – processo de reprodução das bactérias por meio do qual pedaços de DNA passam diretamente de uma para a outra. O fragmento de DNA transferido se recombina com o material genético da bactéria receptora, produzindo novas combinações genéticas que serão transmitidas às células-filhas na próxima divisão celular".

Cepas bacterianas carregando o gene mcr-1 (que causa resistência a uma classe de antibióticos específicos ao tratamento de infecções por bactérias multirresistentes) foram encontradas tanto em animais de produção como em seres humanos, levantando suspeitas sobre a existência de uma cadeia na disseminação da resistência a colistina que começa a partir do uso do antibiótico na alimentação animal, propagando-se para os animais abatidos, os alimentos derivados e o ambiente. (Grifos nossos)

À "Agência FAPESP", o pesquisador Lincopan afirmou que "papers de pesquisadores de diferentes países reportaram em seguida a identificação do gene mcr-1 em cepas de bactérias clinicamente importantes, como Escherichia coli, Salmonella spp. e Klebsiella pneumoniae. 'O aspecto mais assustador sobre o gene é a facilidade com que ele é transferido entre diferentes espécies bacterianas. Consequentemente, algumas bactérias hospitalares têm alinhado este gene junto a outros de resistência a antibióticos, favorecendo que a espécie bacteriana receptora fique resistente a praticamente a totalidade dos medicamentos. Assim, se um paciente estiver gravemente infectado, por exemplo, por uma E. coli, não haverá nada que se possa fazer'".

 

Urgência epidemiológica

 

[Da Agência FAPESP] De acordo com o pesquisador Lincopan, suspeita-se que a principal razão para o surgimento e a propagação do mcr-1 seja o uso exacerbado de colistina na produção agropecuária, como promotora de crescimento. Entretanto, a presença do gene também foi descrita em amostras de animais domésticos, alimentos e ambientes aquáticos, evidenciando a disseminação para diversos ecossistemas. (Grifos nossos)

"No Brasil, no início deste ano, nosso grupo de pesquisa identificou pela primeira vez a presença do gene mcr-1 em animais de produção das regiões Sudeste (São Paulo e Minas Gerais) e Sul (Paraná e Santa Catarina), o que deve ser considerado uma urgência epidemiológica e um alerta para as implicações no agronegócio, visto que o país é um grande produtor e exportador de produtos de origem animal". (Grifos nossos)

Para os pesquisadores, segundo a "Agência FAPESP", "os órgãos reguladores do setor deveriam reavaliar o uso de antibióticos como a colistina".

Miriam Fernandes, aluna de doutorado da FCF-USP – Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (e primeira autora dos artigos publicados), disse à "Agência FAPESP" que "O impacto real da resistência bacteriana no Brasil também precisa ser avaliado pelo poder público e pela comunidade científica. Além disso, devemos privilegiar a educação sobre o uso racional de antibacterianos. Clinicamente, muitos estudos e reuniões científicas têm alertado que bactérias multirresistentes estão adquirindo um caráter de endemicidade em centros hospitalares, sendo frequentemente associadas a altas taxas de falha terapêutica e subsequente morbimortalidade. Estes esforços poderiam evitar uma situação irreversível".

Um plano de ação global contra o risco do colapso dos antibióticos, avalia o pesquisador Lincopan à "Agência FAPESP", deve incluir "o uso racional desses fármacos na saúde humana e animal, o reforço da vigilância epidemiológica e o estímulo de pesquisas na área, a educação da população e dos profissionais da saúde humana e veterinária, assim como fazendeiros e produtores, sobre o uso adequado de antibióticos e o desenvolvimento de novos compostos e ferramentas de diagnóstico". (Grifos nossos)

Os resultados da pesquisa podem ser acessados no artigo First Report of the Globally Disseminated IncX4 Plasmid Carrying the mcr-1 Gene in a Colistin-Resistant Escherichia coli ST101 isolated from a Human Infection in Brazil e no artigo Silent dissemination of colistin-resistant Escherichia coli in South America could contribute to the global spread of the mcr-1 gene.

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As polimixinas são antibióticos polipeptídeos com potente ação sobre várias bactérias gram-negativas. O seu uso foi praticamente abandonado entre 1970 e 1980, em virtude do aparecimento de drogas com menor toxicidade. Com o aparecimento de bactéria gram-negativas multirresistentes, principalmente em pacientes internados em unidades de terapia intensiva, e a ausência de novos antimicrobianos para combater esses patógenos, renovou-se o interesse pelas polimixinas nos últimos anos. O principal efeito adverso desta classe de antibióticos é a nefrotoxicidade. Atualmente, somente as polimixinas B e E são utilizadas na prática clínica. A polimixina E é conhecida como colistina e utilizada na forma de colestimetato de sódio com o intuito de reduzir sua nefrotoxicidade, sendo o composto mais utilizado e mais estudado. Não existem dados consistentes sobre a prevalência de leão renal associada ao uso das polimixinas ou sobre os fatores de risco para desenvolvimento de nefrotoxicidade desses antibióticos. A proposta deste artigo é rever os principais aspectos de farmacodinâmica das polimixinas, prover um melhor entendimento dos seus mecanismos de nefrotoxicidade e comparar as diferentes prevalências de lesão renal descritas com o uso desta classe de antibióticos.

As polimixinas formam um grupo de antibióticos ativos contra várias bactérias gram-negativas. Sintetizadas por cepas de Bacillus polimyxa, foram descritas de forma independente em 1947 por pesquisadores norte-americanos e ingleses e o nome genérico de polimixinas foi adotado para os antibióticos originados por este microorganismo. Constituem um grupo de cinco substâncias intimamente relacionadas, que receberam o nome de polimixinas A, B, C, D e E, sendo esta última chamada de colistina, produzida pelo Bacillus colistinus. Somente as polimixinas B e E são utilizadas clinicamente, em virtude da grande toxicidade das demais (http://www.scielo.br/pdf/ramb/v55n6/23.pdf).

2 PhD, professor assistente no Departamento de Microbiologia do ICB-USP - Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo.

 

PLS nº 326/2016

No Brasil, o Senado quer privatizar a fiscalização agropecuária tutelada pelo Estado

 

No Brasil, em tempos difíceis de disseminação das DTA’s – doenças transmitidas por alimentos e de emergência epidemiológica causada pela E. coli e o gene mcr-1, tramita no Senado Federal o PLS - projeto de lei do senado nº 326/2016 com a intenção de privatizar (via "auditoria sanitária" e credenciamento de estabelecimentos privados para a "autoinspeção") a fiscalização agropecuária tutelada pelo Estado. Para a Afisa-PR - Associação dos Fiscais da Defesa Agropecuária do Estado do Paraná, é inadmissível que problemas específicos e localizados de inspeção de produtos de origem animal tutelada pelo Estado – cuja solução deveria passar pela intervenção da Instância Central e Superior sobre entes federativos problemáticos para que os SIEs - sistemas de inspeção estadual operem legalmente – impliquem na desorganização do SUASA - Sistema Unificado de Atenção à Sanidade Agropecuária e na revogação do Decreto Federal nº 5.741/2006 (como intenciona o PLS nº 326/2016).

Diante dos termos dos privatizantes PL nº 334/2015 (que tramita na Câmara dos Deputados) e PLS nº 326/2016, é lícito supor que está em curso uma aliança do mercado com autoridades governamentais e políticos para privatizar a fiscalização agropecuária tutelada pelo Estado,  a toque de caixa, sem nenhuma discussão técnica e, principalmente, sem nenhuma avaliação decorrente, por exemplo, da implantação de projetos piloto (a exemplo do que ocorre nos EUA com o HIMP - Inspection Models Project) para investigação de como funciona plantas privatizadas sob "autoinspeção" de produtos de origem animal destinados à alimentação humana.

Alimentos não seguros também impactam economicamente, especialmente em um mundo que é globalizado. Em 2011, um surto de Escherichia coli na Alemanha causou aproximadamente US$ 1,3 bi em perdas para a agropecuária e indústrias e US$ 236 mi em pagamentos de ajuda de emergência a 22 países da União Europeia (UE).

 

 

As DTA’s  causadas por E. coli são mais comuns do que se possa imaginar. Ocorrem frequentemente em países desenvolvidos, como comprova-se pelas seguintes reportagens: "Food Safety News" & Ground beef recalled for possible E. coli O157:H7 contamination [BY NEWS DESK | SEPTEMBER 30, 2016]; "Food Safety News" & CDC closes flour/E. coli investigation; expects more illnesses [BY CORAL BEACH | SEPTEMBER 30, 2016]; CDC - Centers for Disease Control and Prevention & Outbreak of Escherichia coli O104:H4 Infections Associated with Sprout Consumption — Europe and North America, May–July 2011; "theguardian" & E coli expert questions Food Standards Scotland's cheese ban - Carrell Scotland editor Thursday 15 September 2016 10.14 BST; e, "Food Safety News" & Kansas researchers develop nanosensor for faster E. coli detection [BY NEWS DESK | SEPTEMBER 26, 2016].

Para a Afisa-PR, caso os fiscais agropecuários sejam retirados de atividade exclusiva do Estado, portanto, indelegável, haverá desastrosas consequências contra a segurança alimentar da população brasileira, contra o comércio e à exportação de produtos agropecuários (especialmente os de origem animal), com severos prejuízos sobre os indicadores socioeconômicos do Brasil.

 

Notícia vinculada:

12-08-2016 - "Agência FAPESP" & Encontrada no Brasil bactéria resistente a um dos mais poderosos antibióticos

 

Matérias vinculadas

20-09-2016 - Afisa-PR & Privatização da fiscalização agropecuária? Em um país onde os fiscais do Estado são tratados com pauladas?

14-09-2016 - Afisa-PR & Privatização da fiscalização agropecuária: A Afisa-PR é contra o PLS 326/2016

06-09-2016 - Afisa-PR & Inspeção e fiscalização são indissociáveis

07-09-2016 - Afisa-PR & Afisa-PR contesta a tentativa de precarização da fiscalização agropecuária tutelada pelo Estado

01-06-2016 - Afisa-PR & Especialistas alertam sobre as consequências da privatização da inspeção de produtos de origem animal

07-07-2016 - Afisa-PR & Contra o PL 334/2015, a Afisa-PR encaminha carta ao seu relator, deputado Onyx Lorenzoni

27-01-2016 - Afisa-PR & Segurança alimentar: Para o DIPOA, parte do sistema de inspeção de produtos de origem animal do Paraná é ilegal

 

Mais informações:

 

Do SindSaúde Paraná

Superbactéria na área?

 

 

Comunicado da Sesa põe servidores/es em alerta

As/os trabalhadoras/es da Sesa ainda não sabem mais detalhes sobre o Comunicado de Risco Nº 01/2016. Divulgado no dia 12/12, o informativo alerta para a detecção de um gene responsável pela resistência à Polomixia, um dos antibióticos mais fortes que existem.

O comunicado reforça cuidados básicos de precaução, mas não informa onde nem quantos pacientes e quantos profissionais foram infectados. O documento também não trata das medidas que a gestão está adotando para solucionar o problema e garantir a segurança no ambiente e processo de trabalho dos profissionais da saúde.

Hoje, 21/12, a direção sindical procurou a Sesa para ter mais informações. Nosso objetivo era entender os fatos que motivaram a publicação do Comunicado de Risco, se já houve algum caso, em quais serviços de saúde já foi constatada a existência do problema para poder ajudar na multiplicação das informações e para que haja a atenção das/os trabalhadoras/es do setor para o problema.

Até as 16h não conseguimos contato com nenhuma autoridade sanitária da Secretaria Estadual de Saúde.

O Sindicato alerta que, para que os devidos cuidados sejam adotados, nenhuma informação pode ser negada aos servidores.

<<<<<Leia AQUI o Comunicado de Risco>>>>>

 

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